Construindo o Natal


A Árvore, a Estrela e a Pequena Mão

A pequena mão desenha a árvore
onde uma estrela se aninha para dormir.
Que dia será o de amanhã
no meio dos escombros onde o eco da súplica
enlouquece os cães famintos?
Quadro trágico para uma noite assim.
A pequena mão pega na borracha
e tenta apagar toda a dor do mundo
e acender com um novo traço
a claridade que resgata a alma.
A estrela acorda numa copa alta
e segue o caminho do que sabe
até encontrar a pequena mão
que tudo reinventa à medida do que somos.
Quando o encontro acontece
já não é noite nem dia, tempo infinito,
mas apenas um lugar onde o choro das crianças
de súbito se transforma em cântico.

A pequena mão desenha tudo
o que falta desenhar para o sonho fazer sentido.
É uma mão frágil mas firme, apenas sábia,
e quando abre o livro azul das manhãs
é sempre para escrever as palavras
que o estrondo abafou nas cidades feridas.
A pequena mão desenha uma árvore,
uma estrela e uma mãe aflita.
Depois desenha uma linha de horizonte,
uma constelação e uma pequena arca.
Um traço basta para criar a luz.
Depois tudo é mistério e júbilo.
Que ao menos esta noite ninguém se esqueça
da árvore, da estrela, da lenda
e da magia da pequena mão afagando a vida.

José Jorge Letria, in 'Antologia Poética'


Árvore de Natal dos especiais


'Principies'


Chamo-Te

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Horizontes


«No fundo do horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais...


E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...»


Xutos & Pontapés, Homem do Leme
Zé Pedro (13-09-1956 ~ 30-11-2017)



«Pensas que eu sou um caso isolado
Não sou o único a olhar o Céu
A ver os sonhos partirem
À espera que algo aconteça
A despejar a minha raiva
A viver as emoções
A desejar o que não tive
Agarrado às tentações»
(...)

Resistência, Não sou o único

Poema vazio


As palavras saem
e voltam para trás
fugindo do vazio
silencioso tenebroso.
Assim tende a ser sempre
Enquanto ele existir 
Vazio, silencioso, opaco.

2017 © PCAA

Àqueles


Àqueles que só gostam de receber e não querem dar. Receberam a vida toda. Não ousam dar.

« "Tudo para mim e nada para os outros" é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo.»


Arthur Schopenhauer, in "A Arte de Insultar" 

Acordando


Na passada quinta-feira tratámos de um contrato que pode dar frutos. Que irá dar frutos, porque houve logo, no dia seguinte, "muito entusiasmo para começar" e muita gratidão por alguém zelar tanto por si e pelo seu desenvolvimento. Tratados que fazem parte.

Contrato Pedagógico


Não ter



"Não ter emoções, não ter desejos, não ter vontades,"



Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Em todos os jardins


Em todos os jardins hei-de florir

Sophia de Mello Breyner Andresen