Das palavras
de algumas palavras
temos de conhecer mais
que seu significado,
temos de lhes sentir o tacto
o gosto, ouvir a voz,
temos de as provar
beber, comer, saborear
mastigar suavemente
e depois com ternura,
as engolir para que permaneçam
guardadas em nós.
Amor! O que é amor
se não for vivido!
Alice Queiroz, “Jardim de Afectos”
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Ética
Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.
Luís Quintais
in «Lamento», 1999
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Já pintei as unhas de gerânio briosa,
já meti perfume e arranjei as coisas como as palavras e o sentir.
Faltas tu para fazer viver.
13-02-2017, Outra hora
2017 © PCAA
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Rimance
Onde é que dói na minha vida,
para que eu me sinta tão mal?
quem foi que me deixou ferida
de ferimento tão mortal?
Cecília Meireles, in Viagem
(Brasil, 7 Nov 1901 // 9 Nov 1964)
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Do paradoxo do teu querer
e do teu nada fazer
Nada
Do nada dizer
Do nada perguntar
Do nada desculpar
Do nada tolerar
Nada
2017 © PCAA
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Poema por lapidar
Na falta de magia
na vida suspensa
paira o malabarista
na corda bamba
baloiça para cá e para lá
aborrece-o a queda livre
entontece-o a falta de ousadia
segura-se porque prefere
a estabilidade do fio
ao voo repentino.
2017 © PCAA
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... os slides em breve...
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| Mosaico 1 |
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| Mosaico 2 |
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| Mosaico 3 |
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| Mosaico final |
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a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.
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A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento,
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
Não mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde;
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.
Vitorino Nemésio
in O Bicho Harmonioso
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Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.
O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.
Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.
Ferreira Gullar
(Brasil, 10-09-1930 ~ 4-12-2016)
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Plano
Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos, que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.
Nuno Júdice, “Poesia Reunida”
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Um Deus à nossa medida…
A fé sempre apetecida
De ver nascer um menino
Divino e habitual.
A transcendência à lareira
A receber da fogueira
Calor sobrenatural.
Miguel Torga, Diário V
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| Aprendendo sobre o chocolate |
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| Derretendo as pepitas de chocolate |
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| Enchendo as formas |
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| Mais formas com chocolate |
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| Falta embrulhar |
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Quando a vida dá o que não queremos
Quando queremos o que a vida não dá
Quando a vida se viveu toda
Quando a vida falta vir
Quando a vida falta à vida
Frases pequenas
2016 © PCAA
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Frases transparentes, mas claras - as dos mudos que nos trespassam de frio.
Frases pequenas
2016 © PCAA
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Pronuncia a palavra como quem
lentamente
a desmontasse
– cada sílaba
um segundo
Ela nomeia
o pequeno maquinismo
do tempo divisível
onde um rosto invisível
te contempla
a cada sílaba
Até chegar a hora
em que te cansas
de ver
de ouvir
e de falar
João Pedro Mésseder, Ordem Alfabética, 2000
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Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Cecília Meirelles
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