Em dia de Reis Magos


Os meninos com necessidades educativas especiais não sabiam quem eram os protagonistas do Dia de Reis. Por isso, pesquisaram e fizeram alguns trabalhos simples onde aprenderam e mobilizaram competências: 







Os três Reis do Oriente 
Cada um dava um presente:
Veio o Belchior com o ouro 
E que belo tesouro!
Veio o Gaspar com incenso 
Para dar!
E veio o Baltazar com mirra 
Para o imortalizar! 

Érica
Patrícia 
5.º 6.ª 



Entremos bem


Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira

Missivas






As cartas e os postais ao Pai Natal chegaram tarde pela demora do correio que tardou a enviar os pedidos, pendentes para o ano novo que se avizinha...



Da arte


Arte Poética

Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.
Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.
Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.
Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

António Ramos Rosa

Luz opaca


Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Mário Cesariny


Surpresas



Na última semana a Carolina, especial, fez-me uma surpresa pois construiu e ofereceu-me o seu Christmas cracker com muitas doçuras e uma mensagem ainda mais especial.
















Por isso, também teve direito à minha retribuição que gerou um êxtase enorme quando abriu e viu também tantas surpresas, para ela inesperadas...


















Bolachas-Natal, também conhecidas como bombons, são parte das comemorações de Natal principalmente no Reino Unido, Irlanda e países da Commonwealth, como a Austrália, Canadá, Nova Zelândia e África do Sul. Um cracker consiste num tubo/rolo de cozinha de papelão envolto num belo papel decorativo, luminoso, dando um efeito desproporcional, mas surpreendente assemelhando-se a um gigante rebuçado.



Faria...


De aqui a pouco acaba o dia.

De aqui a pouco acaba o dia.
Não fiz nada.
Também, que coisa é que faria?
Fosse o que fosse, estava errada.

De aqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para o contar o coração.

E após a noite a irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?


31-8-1930
Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 186.

Dicotomias


Lá fora onde árvores são
O que se mexe a parar
Não vejo nada senão,
Depois das árvores, o mar.

É azul intensamente,
Salpicado de luzir,
E tem na onda indolente
Um suspirar de dormir.

Mas nem durmo eu nem o mar,
Ambos nós, no dia brando,
E ele sossega a avançar
E eu não penso e estou pensando.

Fernando Pessoa, 14-8-1932

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).