Com efeito


Efeitos secundários

É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
o outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes

Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?

Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento

E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reúna-nos um dia o toque da trombeta

Ruy Belo

Aprendendo com as crianças



Explorando novas ferramentas de criação de ebooks, agora em formato 3D Por-Up, e em dia Mundial da Criança relembrando ideias-chave para pôr em prática.



Marca registada



Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.

Pedro Mexia
[n. 1972, Poeta / Cronista / Crítico Literário]

Em dia da árvore e da floresta

Motivar os alunos para a leitura e simultaneamente para a consciencialização ambiental pela reflexão sobre a importância da preservação das árvores, abre caminho a trabalhos de expressão plástica e escrita simples de alunos muito pequeninos :-) 

Reescrever

Escrever

Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.

Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas do espírito…

Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da pedrada, do tal ataque às
coisas certas e negadas…
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!

Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre vós passaria,
transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?

Irene Lisboa

Ímpetos irados


Fúria nas trevas o vento 
Num grande som de alongar, 
Não há no meu pensamento 
Senão não poder parar. 

Parece que a alma tem 
Treva onde sopre a crescer 
Uma loucura que vem 
De querer compreender. 

Raiva nas trevas o vento 
Sem se poder libertar. 
Estou preso ao meu pensamento 
Como o vento preso ao ar. 

Fernando Pessoa

Dias a fio


De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…


Cecília Meireles
[1901-1964, Brasil]

Expressão plástica

No último dia de aulas, os alunos com necessidades educativas especiais constroem as suas máscaras de carnaval com obejtivos de melhorar a motricidade fina no traçado usando moldes e recorte, pintura e decoração, desenvolvendo também o sentido estético.




Máscaras da Rute, Francisco, Jorge (7.º A), Mara (2ºano) e Rui (6.º A)


Máscara do Emanuel, 4ºA