Aprendendo com as crianças



Explorando novas ferramentas de criação de ebooks, agora em formato 3D Por-Up, e em dia Mundial da Criança relembrando ideias-chave para pôr em prática.



Marca registada



Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.

Pedro Mexia
[n. 1972, Poeta / Cronista / Crítico Literário]

Em dia da árvore e da floresta

Motivar os alunos para a leitura e simultaneamente para a consciencialização ambiental pela reflexão sobre a importância da preservação das árvores, abre caminho a trabalhos de expressão plástica e escrita simples de alunos muito pequeninos :-) 

Reescrever

Escrever

Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.

Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas do espírito…

Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da pedrada, do tal ataque às
coisas certas e negadas…
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!

Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre vós passaria,
transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?

Irene Lisboa

Ímpetos irados


Fúria nas trevas o vento 
Num grande som de alongar, 
Não há no meu pensamento 
Senão não poder parar. 

Parece que a alma tem 
Treva onde sopre a crescer 
Uma loucura que vem 
De querer compreender. 

Raiva nas trevas o vento 
Sem se poder libertar. 
Estou preso ao meu pensamento 
Como o vento preso ao ar. 

Fernando Pessoa

Dias a fio


De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…


Cecília Meireles
[1901-1964, Brasil]

Expressão plástica

No último dia de aulas, os alunos com necessidades educativas especiais constroem as suas máscaras de carnaval com obejtivos de melhorar a motricidade fina no traçado usando moldes e recorte, pintura e decoração, desenvolvendo também o sentido estético.




Máscaras da Rute, Francisco, Jorge (7.º A), Mara (2ºano) e Rui (6.º A)


Máscara do Emanuel, 4ºA

Do curso das coisas

Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny