Em dia da árvore e da floresta

Motivar os alunos para a leitura e simultaneamente para a consciencialização ambiental pela reflexão sobre a importância da preservação das árvores, abre caminho a trabalhos de expressão plástica e escrita simples de alunos muito pequeninos :-) 

Reescrever

Escrever

Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.

Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas do espírito…

Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da pedrada, do tal ataque às
coisas certas e negadas…
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!

Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre vós passaria,
transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?

Irene Lisboa

Ímpetos irados


Fúria nas trevas o vento 
Num grande som de alongar, 
Não há no meu pensamento 
Senão não poder parar. 

Parece que a alma tem 
Treva onde sopre a crescer 
Uma loucura que vem 
De querer compreender. 

Raiva nas trevas o vento 
Sem se poder libertar. 
Estou preso ao meu pensamento 
Como o vento preso ao ar. 

Fernando Pessoa

Dias a fio


De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…


Cecília Meireles
[1901-1964, Brasil]

Expressão plástica

No último dia de aulas, os alunos com necessidades educativas especiais constroem as suas máscaras de carnaval com obejtivos de melhorar a motricidade fina no traçado usando moldes e recorte, pintura e decoração, desenvolvendo também o sentido estético.




Máscaras da Rute, Francisco, Jorge (7.º A), Mara (2ºano) e Rui (6.º A)


Máscara do Emanuel, 4ºA

Do curso das coisas

Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny

Às vezes


Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

18-12-1934

Álvaro de Campos | Fernando Pessoa

Intacto


Inseparação

Esta
maneira de não estarmos juntos
mais  nos insepara.
E ouvir
desenfadonha algazarra
dos netos alegrando a casa.
À hora da sesta
querê-los irrequietos mufaninhos
eu eterno avô desadormecido
pela barulheira dos netos.
Esta
inesquecível maneira
de não estarmos juntos
em nenhum sítio da vida
mais nos insepara
nos parágrafos do tempo.
Dor verdadeira
tem sempre outros contornos.
Quem a sente a rigor
é sempre o mais pequeno.

José Craveirinha