Escrever
Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.
E gostava para as infinitamente delicadas coisas do espírito…
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da pedrada, do tal ataque às
coisas certas e negadas…
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre vós passaria,
transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?
Irene Lisboa
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Fúria nas trevas o vento
Num grande som de alongar,
Não há no meu pensamento
Senão não poder parar.
Parece que a alma tem
Treva onde sopre a crescer
Uma loucura que vem
De querer compreender.
Raiva nas trevas o vento
Sem se poder libertar.
Estou preso ao meu pensamento
Como o vento preso ao ar.
Fernando Pessoa
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De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.
De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…
Cecília Meireles
[1901-1964, Brasil]
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| Máscara do Emanuel, 4ºA |
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Lembra-te
Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos
Mário Cesariny
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Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
18-12-1934
Álvaro de Campos | Fernando Pessoa
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Inseparação
Esta
maneira de não estarmos juntos
mais nos insepara.
E ouvir
desenfadonha algazarra
dos netos alegrando a casa.
À hora da sesta
querê-los irrequietos mufaninhos
eu eterno avô desadormecido
pela barulheira dos netos.
Esta
inesquecível maneira
de não estarmos juntos
em nenhum sítio da vida
mais nos insepara
nos parágrafos do tempo.
Dor verdadeira
tem sempre outros contornos.
Quem a sente a rigor
é sempre o mais pequeno.
José Craveirinha
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Os alunos especiais também escrevem o que pensam e sentem...
Com o objetivo de desenvolver:
- processos cognitivos que ativam a reflexão;
- a mundividência subjetiva e as representações pessoais;
- a expressão escrita e a caligrafia;
- a motricidade fina no traçado usando moldes, recorte com tesoura de corte irregular, pintura e sentido estético.
Porque o que é óbvio e simples não o é para estas crianças, dotadas também de talentos especiais.
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