Recorte


Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram…
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.

Yvette Centeno

Entre as margens


É um poema de amor.
Começa num sorriso promissor
E acaba num soluço
De saudade.
Entre essas duas margens,
Um rio de silêncio.
Um rio largo, onde se espelha, baça,
A paisagem severa de uma vida,
A que faltou a graça
Dessa remota hora repetida.

Miguel Torga
Diário XIII, p. 95
Coimbra, 15 de Maio de 1979

Atemporal

Enquanto se faz longo e profundo o meu sono, a intemporalidade mítica do:


Idílio

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas:

Ou, vendo o mar, das ermas cumeadas,
Contemplamos as nuvens vespertinas
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longe, no horizonte, amontoadas:

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão, e empalideces...

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das cousas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.

Antero de Quental

in Antologia 366 poemas que falam de amor, Vasco Graça Moura (org.). Lisboa: Quetzal, 2003: 427


Algures


Quero, terei -
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.

Fernando Pessoa

Mais um dia, mais poesia


Mulher-poetisa

Pareces um mistério 
intransponível

Alguém que se 
esquivou
ao seu preceito

Na recusa 
de obedecer à vida

Ao quererem-te domada
e desse jeito
dócil obediente submissa

"Impossível!" - respondeste
branda e esquiva

Sou mulher
Revoltosa
E poetisa

Maria Teresa Horta, Poemas para Leonor, Lisboa: D. Quixote, 2012

Ar sem ar

A cabeça no ar

As coisas melhores são feitas no ar,
andar nas nuvens, devanear,
voar, sonhar, falar no ar
e ir lá para dentro morar,
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respiração a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar
a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar
             (embora sem ver),
e ficar muito quietinho a ser,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer,
e isto tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
As coisas melhores são de ar,
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar.


Manuel António Pina, O Pássaro da Cabeça e Mais Versos para Crianças. Porto: Assírio & Alvim, 2012: p. 25-26

Simetrias



«Como ele sempre dissera: o rio e o coração, 
o que os une? O rio nunca está feito, 
como não está o coração. Ambos são 
sempre nascentes, sempre nascendo. 
Ou como eu hoje escrevo: milagre é o rio 
não findar mais. Milagre é o coração 
começar sempre no peito de outra vida.»

Mia Couto, A chuva Pasmada, Lisboa: Ed. Caminho, 2012


Conto, hoje



«Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.»

«Que vida! A autêntica vida está ausente. Não estamos no mundo.»

Jean-Arthur Rimbaud
[França, 1854-1891]



«E como os anos iam passando, em 74 chegámos ao 25 de Abril.
Ao cabo de longas décadas de ditadura minuciosa, a súbita mudança foi uma festa incrível, uma intensa e confiante alegria sem dúvidas nem sombras. Durante alguns dias vivi em estado de levitação, sem sono, sem fome, sem cansaço, sem peso. Na rua todas as pessoas sorriam, ninguém empurrava. Parecia que o mal tinha acabado. Surgiam pequenos grupos de gente muito nova que, em diagonal, atravessava as praças com uma bandeira à frente, correndo em triângulo como um bando de aves migratórias. Outros grupos pareciam o corpo de baile que, aéreo e leve, atravessa o palco. Não era só a política que tinha mudado, era, parecia-nos, a vida que tinha regressado à sua verdade. Parecia-nos que se cumpria o sonho de Rimbaud e a poesia se tinha tornado interior à vida quotidiana.
No domingo seguinte ao 25 de Abril, embora me tivesse deitado tarde, levantei-me cedo. No fim da manhã, estava eu a falar ao telefone, quando ouvi ao longe, na rua, uma concertina a tocar a música do “Avante, Camarada!”. Acabei a conversa o mais depressa que pude e corri à janela.
O cego já ia no fim da rua. Mas a música ressoava com força nas paredes e enchia a rua toda de alvoroço e proclamação. Ri-me de alegria. Aquilo que agora, ali, estava a acontecer era muito mais importante do que as ideologias: o cego tinha deitado fora a lamentação, afirmava e proclamava o seu sonho, a sua esperança, a sua confiança.
(…)
Entretanto, nas ruas, nas rádios, nos jornais, na televisão, nos discursos e nos factos, a demagogia foi-se tornando indecorosa e quasi omnipresente, corrompendo a linguagem. Comecei a lembrar-me da frase de Heraclito: “O pior de todos os desastres seria a morte da palavra.”
Muitos aderiram com entusiasmo à retórica dos demagogos. Mas através da confusão, aqui e além, erguiam-se vozes defendendo outro entendimento da liberdade. E, aqui e além, a inteligência popular arrebitava a orelha.
Na televisão, certo dia, apareceu um jornalista a fazer uma reportagem nas terras do Norte, no ecrã via-se m camponês alto, magro, e mudo, a subir a passos largos e pausados uma íngreme ladeira, enquanto o jornalista de microfone em puno, corria atrás dele. Finalmente, conseguiu alcançá-lo e perguntou:
- O que pensa do 25 de Abril?
- De que ano? – respondeu o camponês.
E impassível, seguiu o seu caminho.»
(…)


Sophia de Mello Breyner Andresen, “O Cego” in Quatro Contos Dispersos. Porto: Porto Editora. 2012, pp. 29-31.