Conto, hoje



«Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.»

«Que vida! A autêntica vida está ausente. Não estamos no mundo.»

Jean-Arthur Rimbaud
[França, 1854-1891]



«E como os anos iam passando, em 74 chegámos ao 25 de Abril.
Ao cabo de longas décadas de ditadura minuciosa, a súbita mudança foi uma festa incrível, uma intensa e confiante alegria sem dúvidas nem sombras. Durante alguns dias vivi em estado de levitação, sem sono, sem fome, sem cansaço, sem peso. Na rua todas as pessoas sorriam, ninguém empurrava. Parecia que o mal tinha acabado. Surgiam pequenos grupos de gente muito nova que, em diagonal, atravessava as praças com uma bandeira à frente, correndo em triângulo como um bando de aves migratórias. Outros grupos pareciam o corpo de baile que, aéreo e leve, atravessa o palco. Não era só a política que tinha mudado, era, parecia-nos, a vida que tinha regressado à sua verdade. Parecia-nos que se cumpria o sonho de Rimbaud e a poesia se tinha tornado interior à vida quotidiana.
No domingo seguinte ao 25 de Abril, embora me tivesse deitado tarde, levantei-me cedo. No fim da manhã, estava eu a falar ao telefone, quando ouvi ao longe, na rua, uma concertina a tocar a música do “Avante, Camarada!”. Acabei a conversa o mais depressa que pude e corri à janela.
O cego já ia no fim da rua. Mas a música ressoava com força nas paredes e enchia a rua toda de alvoroço e proclamação. Ri-me de alegria. Aquilo que agora, ali, estava a acontecer era muito mais importante do que as ideologias: o cego tinha deitado fora a lamentação, afirmava e proclamava o seu sonho, a sua esperança, a sua confiança.
(…)
Entretanto, nas ruas, nas rádios, nos jornais, na televisão, nos discursos e nos factos, a demagogia foi-se tornando indecorosa e quasi omnipresente, corrompendo a linguagem. Comecei a lembrar-me da frase de Heraclito: “O pior de todos os desastres seria a morte da palavra.”
Muitos aderiram com entusiasmo à retórica dos demagogos. Mas através da confusão, aqui e além, erguiam-se vozes defendendo outro entendimento da liberdade. E, aqui e além, a inteligência popular arrebitava a orelha.
Na televisão, certo dia, apareceu um jornalista a fazer uma reportagem nas terras do Norte, no ecrã via-se m camponês alto, magro, e mudo, a subir a passos largos e pausados uma íngreme ladeira, enquanto o jornalista de microfone em puno, corria atrás dele. Finalmente, conseguiu alcançá-lo e perguntou:
- O que pensa do 25 de Abril?
- De que ano? – respondeu o camponês.
E impassível, seguiu o seu caminho.»
(…)


Sophia de Mello Breyner Andresen, “O Cego” in Quatro Contos Dispersos. Porto: Porto Editora. 2012, pp. 29-31.

Agenda para 2013

Mário Gomes, Árvore, 2007

Da vida

Vicent van Gogh, The Mulberry tree, 1889

A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!

João de Deus

Poesia do sem

Sem poesia adequada
Sem nada

(In)quietude

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dual (1972)/ in Obra Poética (2010)

Vertido


Derramado
...
Perdido, perdido, este vagabundear dos meus olhos
sobre os livros fechados e decorados,
sobre as árvores roídas,
sobre as coisas quietas, quietas...
...

Fernando Namora, in Mar de Sargaços

Romancista, ensaísta, poeta [15-4-1919, Condeixa-a-Nova ~ 31-1-1989, Lisboa].

Branco claro

Sombra e forma

O poema há-de emergir da sombra

florir no zero e no silêncio
o poema que está dentro
da forma por nascer
o poema que já é
antes de ser.


Manuel Alegre, in Nada está escrito, Ed. Dom Quixote, 2012

Branco escuro


Depois do branco

Quem sabe o que na página se esconde

e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?


Quem sabe o que pode acontecer 
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?


Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?


Manuel Alegre, in Nada está escrito, Ed. Dom Quixote, 2012