Da vida

Vicent van Gogh, The Mulberry tree, 1889

A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!

João de Deus

Poesia do sem

Sem poesia adequada
Sem nada

(In)quietude

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dual (1972)/ in Obra Poética (2010)

Vertido


Derramado
...
Perdido, perdido, este vagabundear dos meus olhos
sobre os livros fechados e decorados,
sobre as árvores roídas,
sobre as coisas quietas, quietas...
...

Fernando Namora, in Mar de Sargaços

Romancista, ensaísta, poeta [15-4-1919, Condeixa-a-Nova ~ 31-1-1989, Lisboa].

Branco claro

Sombra e forma

O poema há-de emergir da sombra

florir no zero e no silêncio
o poema que está dentro
da forma por nascer
o poema que já é
antes de ser.


Manuel Alegre, in Nada está escrito, Ed. Dom Quixote, 2012

Branco escuro


Depois do branco

Quem sabe o que na página se esconde

e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?


Quem sabe o que pode acontecer 
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?


Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?


Manuel Alegre, in Nada está escrito, Ed. Dom Quixote, 2012


Entrelinhas


Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente. 


CLARICE LISPECTOR, in ÁGUA VIVA (Francisco Alves Editora. 11ª. Edição, RJ, 1990: p.25)


Alinhavo

Anabela Dias, Temporal
Pouco tenho para alinhavar.

Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.

Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam

a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
a memória a estiolar.

Eduardo Pitta