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Concretamente abstrato, não



A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento,
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
Não mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde;
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.


Vitorino Nemésio
in O Bicho Harmonioso

Anti prosódia


A árvore do silêncio

Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore? 
Em que pontas, a corola do silêncio? 
Coração já cansado, és a raiz: 
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra: 
Semeia o que calou. 
Não faz sentido quem lavra 
Se o não colhe do que amou.

Assim, sílaba e folha, porque não 
Num só ramo levá-las 
Com a graça e o redondo de uma mão?
(Tu não te calas? Tu não te calas?!)


5-8-1962
Vitorino Nemésio, Canto de véspera