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'Principies'


Chamo-Te

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Em todos os jardins


Em todos os jardins hei-de florir

Sophia de Mello Breyner Andresen

"Colhe o dia porque és ele"

Homenagem a Ricardo Reis

I
Não creias Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiamos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.

(...) 

III
Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos nessa
Transparência ambígua.

(...)


Sophia de Mello Breyner Andresen

Conto, hoje



«Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.»

«Que vida! A autêntica vida está ausente. Não estamos no mundo.»

Jean-Arthur Rimbaud
[França, 1854-1891]



«E como os anos iam passando, em 74 chegámos ao 25 de Abril.
Ao cabo de longas décadas de ditadura minuciosa, a súbita mudança foi uma festa incrível, uma intensa e confiante alegria sem dúvidas nem sombras. Durante alguns dias vivi em estado de levitação, sem sono, sem fome, sem cansaço, sem peso. Na rua todas as pessoas sorriam, ninguém empurrava. Parecia que o mal tinha acabado. Surgiam pequenos grupos de gente muito nova que, em diagonal, atravessava as praças com uma bandeira à frente, correndo em triângulo como um bando de aves migratórias. Outros grupos pareciam o corpo de baile que, aéreo e leve, atravessa o palco. Não era só a política que tinha mudado, era, parecia-nos, a vida que tinha regressado à sua verdade. Parecia-nos que se cumpria o sonho de Rimbaud e a poesia se tinha tornado interior à vida quotidiana.
No domingo seguinte ao 25 de Abril, embora me tivesse deitado tarde, levantei-me cedo. No fim da manhã, estava eu a falar ao telefone, quando ouvi ao longe, na rua, uma concertina a tocar a música do “Avante, Camarada!”. Acabei a conversa o mais depressa que pude e corri à janela.
O cego já ia no fim da rua. Mas a música ressoava com força nas paredes e enchia a rua toda de alvoroço e proclamação. Ri-me de alegria. Aquilo que agora, ali, estava a acontecer era muito mais importante do que as ideologias: o cego tinha deitado fora a lamentação, afirmava e proclamava o seu sonho, a sua esperança, a sua confiança.
(…)
Entretanto, nas ruas, nas rádios, nos jornais, na televisão, nos discursos e nos factos, a demagogia foi-se tornando indecorosa e quasi omnipresente, corrompendo a linguagem. Comecei a lembrar-me da frase de Heraclito: “O pior de todos os desastres seria a morte da palavra.”
Muitos aderiram com entusiasmo à retórica dos demagogos. Mas através da confusão, aqui e além, erguiam-se vozes defendendo outro entendimento da liberdade. E, aqui e além, a inteligência popular arrebitava a orelha.
Na televisão, certo dia, apareceu um jornalista a fazer uma reportagem nas terras do Norte, no ecrã via-se m camponês alto, magro, e mudo, a subir a passos largos e pausados uma íngreme ladeira, enquanto o jornalista de microfone em puno, corria atrás dele. Finalmente, conseguiu alcançá-lo e perguntou:
- O que pensa do 25 de Abril?
- De que ano? – respondeu o camponês.
E impassível, seguiu o seu caminho.»
(…)


Sophia de Mello Breyner Andresen, “O Cego” in Quatro Contos Dispersos. Porto: Porto Editora. 2012, pp. 29-31.

(In)quietude

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dual (1972)/ in Obra Poética (2010)

In absentia



Thomas C. Fedro, Separation Anxiety, 2006
Ausência


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua



Sophia de Mello Breyner Andresen, in MAR NOVO (Guimarães Ed, 1958), OBRA POÉTICA (Caminho, 2010)

Pesquisando autores

É tempo de sabermos quem é Sophia de Mello Breyner Andresen a propósito do início da leitura orientada de O cavaleiro da dinamarca. Pesquisa sobre a autora na Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas  e aqui também, para a apresentação oral.