Quatorze versos
No primeiro é assim: fica de parte.No segundo já posso prometer
que no terceiro vai haver mais arte.
Mas afinal não houve... Que fazer?
Melhor será calar, pois que dizer
nem no sexto conseguirei destarte.
Os acentos errados é favor não ver;
nem os versos errados, que também sei hacer...
Ó nono verso por que vais embora
sem que eu te sublime neste décimo?
Ao décimo primeiro dediquei uma hora.
Errei-o. Mas que importa se a poesia,
mesmo que não o errasse, já não vinha?
É este o último e, como os outros, péssimo...
Alexandre O'Neill, in Poesias Completas 1951/1986
Poeta contemporâneo (Lisboa, 1924 - Lisboa, 1986), descendente de Irlandeses, é um dos fundadores do movimento surrealista em Portugal, cujo desmembramento da lógica textual e a pluralidade de sentidos emprestam forma às temáticas da solidão, do amor, do sonho, do tempo, da morte, do medo que entrelaça entre a constatação do absurdo da vida e o humor, única forma de se lhe opor.
O soneto possui uma arquitectura lógica com introdução, desenvolvimento e conclusão - esta no último terceto ou no(s) último(s) verso(s), denominada chave de ouro do soneto por conter a descodificação de todo o poema. Existem, contudo, variações na estrutura externa do soneto:
Soneto italiano ou petrarquiano - composição poética de catorze versos distribuídos por duas quadras e dois tercetos.
Soneto inglês ou shakespeariano - composição de três quadras e um dístico.
Soneto monostrófico - composição que apresenta uma só (mono) estrofe de catorze versos.
Miguel de Cervantes cultivou o soneto irregular, acrescentando-lhe um strambotto - um ou mais versos no final - termo italiano para extravagante, irregular. Daí a designação de soneto estrambótico como soneto incomum.
Quem mais aperfeiçoou esta forma poética foi Petraca de quem o seu Cancioneiro com 317 sonetos é a principal referência, influência e difusão na literatura ocidental, mas que derivara já de uma composição originária da Sicília do séc. XIII. Os seus melhores poemas são dedicados à sua amada (Laura de Novaes) por quem possuía um amor espiritual, idealizado, donde derivou a expressão corrente como amor à maneira de Petrarca e que tantos poetas incorporaram criando-se o Petrarquismo como atitude do poeta pela mulher amada, bela e imaculada que o faz sofrer despertando-lhe um amor platónico assente no amor vislumbrado na perfeição dos traços espirituais, no endeusamento do objecto amado, inatingível, inacessível e por isso fonte de sofrimento perturbador mas casto e leal. O amor platónico encontra uma relação com a filosofia platónica (de Platão, sécs. IV-I a.c.) para quem existe uma verdade suprema - a da primazia das ideias das formas ideais, imutáveis, incorruptíveis das quais se origina o mundo sensível, sujeito ao devir. E no dilema dos dois mundos - o material, sensível ou das aparências que corrompe, contrasta o mundo espiritual, inteligível ou das essências onde a beleza particular do ser amado não é mais que uma mutilação da ideia perfeita e eterna de Beleza, assim como o amor sentido como desejo de algo material é inferior ao Amor espiritual e puro [História Universal da Literatura Portuguesa].
Ainda Dante Alighieri, autor da Divina Comédia, também cultivou o soneto no seu amor por Beatriz na sua Vita Nuova. William Shakespeare adoptou-o com uma arquitectura diferente da clássica e original de Petrarca e, a partir do séc. XVI, o soneto tornou-se a melhor representação da poesia lírica infuenciando músicos como Tchaikovsky e Vivaldi, bem como o poeta russo Aleksandr Pushkin e o poeta francês Charles Baudelaire que o trabalhou com o verso dodecassílabo ou Alexandrino (versos com doze sílabas métricas).
O poeta português do período clássico, Sá de Miranda, depois das suas viagens por Itália introduz em Portugal, no séc. XVI, novas formas poéticas, entre as quais o soneto e as composições decassilábicas que viriam a ser trabalhadas com mestria por Luís Vaz de Camões que adoptou aquela estética, cultivando e imortalizando o soneto de amor na língua portuguesa que conhece na literatura contemporânea da poetiza Florbela Espanca, por exemplo, uma forte expressão.
Posteriormente, outras correntes literárias como o iluminismo na sua adesão ao humanismo e ao barroco desprezam o soneto que só é retomado pela corrente do romantismo que sobrevive até ao verso livre dos poetas modernistas. E o soneto acaba por ser tema de poema nesta desestruturação da linguagem, efusão que o surrealismo instaura não só na literatura como em outras expressões artísticas (Miró, René Magritte e Salvador Dali nas artes plásticas), mas de quem nas letras, Alexandre O'Neill é um ícone. A partir da definição criada pelo seu autor Guillaume Apollinaire, poeta francês, em 1912, surrealismo "é o que está acima do realismo".








