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| Salvador Dalí, Galateia de Esferas, 1952 |
Agora as palavras
Obedecem-me agora muito menos,
as palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se da rédea,
não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo-de-artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão, e elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.
Com elas fazia o lume,
sustentava os meus dias, mas agora
estão ariscas, escapam-se por entre
as mãos, arreganham os dentes
se tento retê-las. Ou será que
já só procuro as mais encabritadas?
Eugénio de Andrade
The Galatea of the Spheres é o retrato da mulher de Dalí, Gala, do nome original Elena Ivanovna Diakonova, mulher também do poeta surrealista Paul Éluard, mas que casou depois com Dalí, em 1934 numa cerimónia civil em Paris e só em 1958 numa outra cerimónia autorizada pela igreja católica. Gala é o universo e a total dedicação do pintor que assina muitas obras com o nome da amada e musa inspiradora.
Este retrato surpreendente é uma das muitas obras nas quais Dali pinta os seus sentimentos por Gala, num estilo que prenuncia em 1958 o Manifesto do Misticismo Nuclear "Anti-Matéria" de Dalí. O artista pretendia, através da pintura desta corrente estética surrealista, mostrar o mundo interior na linha de Freud, de quem diz ser seu discípulo. A revolução mental e consequentemente política era um dos vetores subjacentes que conduzia Dalí a impregnar nos seus trabalhos uma filosofia estética para conquistar politicamente o mundo, pois sentia que a sua visão poderia ser imposta colorindo o mundo e por isso seria desnecessário mudá-la objetivamente.









