Uma selecção:
Tomar nas minhas mãos o sopro suave
Tomar nas minhas mãos o sopro suave
Que aflora à tua boca.
Levá-lo aos meus lábios e beijá-lo
Como quem, timidamente,
Se debruça e escuta
O fluir do orvalho
Sobre as flores da aurora.
Ruy Cinatti, in Anoitecendo a Vida Recomeça
Transfiguração
Esta chuva que cai e cerra o horizonte,
Que fecha e oculta o que talvez amasse
— O que poderia amar perdidamente,
O que poderia ver e humanamente amar!...
Esta chuva que continuamente cai,
Quanta doçura nela encontro,
Quantos iluminados gestos sem saber,
Quanto mistério, cor, descanso e aroma,
Quanta presença frente à limpidez que se admira,
Frente à mulher que em nosso peito prepara uma límpida festa
E nos convida a mar com os olhos rasos de água!
Ruy Cinatti, In O Livro do Nómada meu Amigo
Poema de Amor
Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.
Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.
Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti — que numero? — ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...
Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
— as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se… —
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minha’alma inquieta um outro bater d’asas
ou num jardim um leito de flores!...
Ruy Cinatti, in 56 Poemas
Ruy Cinatti [Londres, 1915 - Lisboa, 1986] poeta, antropólogo e agrónomo português, cujas viagens por Timor fazem-no aproximar mais de si mesmo e da vida humana enquanto poeta, em que a escrita navega na liberdade métrica e lexical rumo à viagem da peregrinação interior do homem. Distinguido com o Prémio Antero de Quental, pela obra O Livro do meu Amigo Nómada (1958), e com o Prémio Nacional de Poesia, por Sete Septetos (1967).








