Em vão procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins herdadas de outros
Como hão-de mais que perfumar de longe
Meu desejo de tê-las?
Ricardo Reis
Heterónimo de Fernando Pessoa
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Colhe o dia, porque és ele
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o inverno estreita.
Como à sorte o acolhamos.
Haja inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa lareira breve.
Ricardo Reis, 8-7-1930
[Fernando Pessoa]
in Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 200
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| Henri de Toulouse-Lautrec, In Bed: The Kiss, 1892 |
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Ricardo Reis | Fernando Pessoa
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Vou dormir, dormir, dormir,
Nirvana
Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.
Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.
Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
20-02-1928
Ricardo Reis| Fernando Pessoa
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