Dia do coração


O Coração

Que jogo jogas, comédia ou lágrima? Cor 
suspensa. Prodígio doendo. Enganador 
relâmpago. Donde se enreda esta coragem 
que chora ao riso e ri à dor? Quatro são 

as pedras mestras do teu jogo. Dois cavalos 
e os reis. Melancólicos actores. Vazia, a 
plateia. O tempo ferido. O peão fugitivo. 
A emoção real do presságio. O aceno 

cordial do outro lado do jogo. Inscrição 
única do pólen, jogada que se arrasta. 
Gota de tédio na lonjura das casas. 

O fecho do jogo se conclui. Muda o rosto a 
visão possível. Cordato, o lance destrói 
a memória do que já não vejo ou sei. 

Orlando Neves, in "Decomposição - o Corpo" 

O vento


É fácil dizer que o vento
tem gatos na voz
enfurecidos.

Que afaga e despenteia,
traz a chuva.

Que levanta as telhas,
exercita na noite
os nossos mais pesados
pesadelos.

É fácil ser poeta
à custa do vento.

Fingir que não sabemos
que o vento não é senão
o vazio que muda de lugar.


A.M. Pires Cabral, in Arado, ed. Cotovia