Oh! Como se me alonga, de ano em ano


Oh, como se me alonga, de ano em ano, 
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.

Luís de Camões

(1) peregrinação: viagem realizada por um devoto religioso até um local considerado sagrado; percurso longo e fatigante.
(2) vão: Inútil.
(3) discurso humano: percurso de vida.
(4) dano: prejuízo, humilhação, desgosto.
(5) se por experiência se adivinha: se a experiência de vida ensina a prever o que acontece.
(6) bem: felicidade.
(7) falece: morre, desaparece.
(8) parece: aparece.

Concretamente abstrato, não



A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento,
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
Não mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde;
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.


Vitorino Nemésio
in O Bicho Harmonioso