Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.
O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.
Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.
Ferreira Gullar
(Brasil, 10-09-1930 ~ 4-12-2016)
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Plano
Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos, que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.
Nuno Júdice, “Poesia Reunida”
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Um Deus à nossa medida…
A fé sempre apetecida
De ver nascer um menino
Divino e habitual.
A transcendência à lareira
A receber da fogueira
Calor sobrenatural.
Miguel Torga, Diário V
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Quando a vida dá o que não queremos
Quando queremos o que a vida não dá
Quando a vida se viveu toda
Quando a vida falta vir
Quando a vida falta à vida
Frases pequenas
2016 © PCAA
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Frases transparentes, mas claras - as dos mudos que nos trespassam de frio.
Frases pequenas
2016 © PCAA
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Pronuncia a palavra como quem
lentamente
a desmontasse
– cada sílaba
um segundo
Ela nomeia
o pequeno maquinismo
do tempo divisível
onde um rosto invisível
te contempla
a cada sílaba
Até chegar a hora
em que te cansas
de ver
de ouvir
e de falar
João Pedro Mésseder, Ordem Alfabética, 2000
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