O tédio do mesmo

Ah querem uma luz melhor que a do sol!

Ah querem uma luz melhor que a do sol!

Querem campos mais verdes que estes!
Querem flores mais belas que estas que vejo!
A mim este sol, estes campos, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontento,
O que quero é um sol mais sol que o sol,
O que quero é campos mais campos que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores —
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
(...) 

12-4-1919

Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos

À volta do teatro

Foi no dia oito que assistimos à representação do texto dramático de Alice Vieira num encontro que promoveu a interação e socialização de alunos com necessidades educativas especiais com os pares da escola, ponto de partida para descobrir, falar, escrever e recontar a biobliografia da autora, nos dias seguintes.

Travessias que nos levam e trazem valores, afetos e lições de vida numa história da tradição popular:


«REI: Mas Amarilis disse que me quer mais do que ao Sol, Hortênsia disse que me quer mais do que ao ar... e vós? Qual é a medida do vosso amor por mim?
VIOLETA: Não sei, senhor. O que não tem fim não se pode medir. É difícil encontrar medida para o amor.
REI (zangado): Elas encontraram! Tereis de a encontrar também!
VIOLETA: Preciso muito de vós, senhor!
REI (zangado): Não chega!
VIOLETA: Preciso de vós como... 
REI:... como?
VIOLETA:... como... como a comida precisa do sal.
(Vozes de espanto)
REI (muito zangado): Estais a querer dizer que me quereis...
VIOLETA: Como a comida quer ao sal.»

Alice Vieira, Leandro o Rei da Helíria

Aqueduto das Águas Livres, Lisboa