'Silentium' II


Apócrifo 
José Tolentino Mendonça

O silêncio frequentemente é pleno e
diz alguma coisa, sempre.
Diz o nada que é muito,
destrói.

2015 © PCAA

'Silentium'


O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

José Tolentino Mendonça

Marcando


No dia de S. Martinho, os alunos com currículo específico individual produziram marcadores de livros alusivos à quadra com objetivos de desenvolver a pesquisa de quadras populares, a linguagem compreensiva e expressiva escrita, bem como a motricidade fina e o sentido estético, elaborando trabalhos plásticos com tecidos, cartolina e papel, ainda que com algumas lacunas devido a dificuldades psicomotoras.



Estação fria

Estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny

No ermo


Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.

Luís Vaz de Camões

Anti prosódia


A árvore do silêncio

Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore? 
Em que pontas, a corola do silêncio? 
Coração já cansado, és a raiz: 
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra: 
Semeia o que calou. 
Não faz sentido quem lavra 
Se o não colhe do que amou.

Assim, sílaba e folha, porque não 
Num só ramo levá-las 
Com a graça e o redondo de uma mão?
(Tu não te calas? Tu não te calas?!)


5-8-1962
Vitorino Nemésio, Canto de véspera

Tempo sem tempo


Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

David Mourão Ferreira

Caminho

Sonho

Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho
(...)

Agostinho da Silva