Nasce !


Nasce mais uma vez
Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.
Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.

Miguel Torga, in 'Diários'

Partilhas natalícias

Hoje terminámos as atividades de Natal... e entre os presentes oferecidos pelas professoras, mostramos os postais e as cartas dos alunos para distribuir aos destinatários (amigos e professores do agrupamento) e outros elementos decorativos, com as renas vigilantes. 
Os pequenos especiais, embora crescidos, com um ritmo de trabalho muito lento, conseguiram pequenas conquistas, reconhecendo melhorias no seu desenvolvimento, valorizando e comunicando também afetos e partilhas intangíveis.



'Silentium' II


Apócrifo 
José Tolentino Mendonça

O silêncio frequentemente é pleno e
diz alguma coisa, sempre.
Diz o nada que é muito,
destrói.

2015 © PCAA

'Silentium'


O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

José Tolentino Mendonça

Marcando


No dia de S. Martinho, os alunos com currículo específico individual produziram marcadores de livros alusivos à quadra com objetivos de desenvolver a pesquisa de quadras populares, a linguagem compreensiva e expressiva escrita, bem como a motricidade fina e o sentido estético, elaborando trabalhos plásticos com tecidos, cartolina e papel, ainda que com algumas lacunas devido a dificuldades psicomotoras.



Estação fria

Estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny

No ermo


Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.

Luís Vaz de Camões

Anti prosódia


A árvore do silêncio

Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore? 
Em que pontas, a corola do silêncio? 
Coração já cansado, és a raiz: 
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra: 
Semeia o que calou. 
Não faz sentido quem lavra 
Se o não colhe do que amou.

Assim, sílaba e folha, porque não 
Num só ramo levá-las 
Com a graça e o redondo de uma mão?
(Tu não te calas? Tu não te calas?!)


5-8-1962
Vitorino Nemésio, Canto de véspera

Tempo sem tempo


Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

David Mourão Ferreira

Caminho

Sonho

Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho
(...)

Agostinho da Silva

Comum


Em vão procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins herdadas de outros
Como hão-de mais que perfumar de longe
Meu desejo de tê-las?

Ricardo Reis
Heterónimo de Fernando Pessoa

Flui a interminável

Colhe o dia, porque és ele

Uns, com os olhos postos no passado, 
Vêem o que não vêem: outros, fitos 
Os mesmos olhos no futuro, vêem 
O que não pode ver-se. 

Por que tão longe ir pôr o que está perto — 
A segurança nossa? Este é o dia, 
Esta é a hora, este o momento, isto 
É quem somos, e é tudo. 

Perene flui a interminável hora 
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto 
Em que vivemos, morreremos. Colhe 
O dia, porque és ele. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

"Colhe o dia porque és ele"

Homenagem a Ricardo Reis

I
Não creias Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiamos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.

(...) 

III
Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos nessa
Transparência ambígua.

(...)


Sophia de Mello Breyner Andresen

'Poemas possíveis'


No Coração, Talvez

No coração, talvez, ou diga antes: 
Uma ferida rasgada de navalha, 
Por onde vai a vida, tão mal gasta. 
Na total consciência nos retalha. 
O desejar, o querer, o não bastar, 
Enganada procura da razão 
Que o acaso de sermos justifique, 
Eis o que dói, talvez no coração. 


José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" 

(Re)Criar


O mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza. Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.
Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

António Botto

Tisanas de verão


Uma das muitas tisanas - poemas em prosa:
 
«nº 241 - Era uma vez uma pessoa que andava sempre com uma palavra debaixo da língua. Quando a tinha na ponta falava, dando pequenos estalos de prazer. Depois lambia os beiços gulosamente. Estamos aqui à espera de quê? Imagina-acção.»

Ana Hatherly
poesia do mundo/2
edições afrontamento
1998

Da fundação poética


O poeta não quer duplicar o mundo
não quer fazer dele uma cópia:

Luta com a palavra
como Jacob lutou com o anjo
mas a escada que ele sobe
conduz a outras alturas
a outras planuras

É assim que o poeta
palavra por palavra
como pedra sobre pedra
constrói o edifício do poema

E a sua mão
robótico instrumento comandado
pela algébrica lógica do sentido oculto
produz
deve produzir
o que o mundo não tem
o que o mundo não diz
o que o mundo não é

Ana Hatherly, (1929-2015). A Idade da Escrita, Lisboa: Edições Tema, 1998, p. 15.

Entre a noite e o crepúsculo, sentidos

No entardecer dos dias de Verão

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir...

Alberto Caeiro | Fernando Pessoa

7-5-1914
O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 64.

Abismo


«[...] Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro......
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada... [...]»


Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988.

Proibido não cumprir

É Proibido

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer...

Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos.


Pablo Neruda

No silêncio dos olhos


No silêncio dos olhos


Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?



José Saramago, in Os Poemas Possíveis

Arrumando palavras inúteis


Verbo

Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.

Nuno Júdice in As coisas mais simples, Lisboa: Dom Quixote, 2007.

Título por haver

IV - As minhas ansiedades caem

As minhas ansiedades caem
Por uma escada abaixo
Os meus desejos balouçam-se
Em meio de um jardim vertical.

Na Múmia a posição é absolutamente exacta.

Música longínqua,
Música excessivamente longínqua,
Para que a Vida passe
E colher esqueça aos gestos.
 
s. d. «Episódios - A Múmia». Poesias. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).

Tradições escolares e populares

Hoje, último dia de escola, tempo para ultimar a participação na construção da sardinha mais cobiçada, tradição da escola a propósito das festas populares do Santo António de Lisboa que acontecem na noite de hoje na capital lisboeta.
A Carolina concebeu a sua sardinha com recurso ao recorte, à dobragem e à colagem de papel, reciclando uma revista antiga - Sardinha com escamas:










Uma de entre três produções, afixadas hoje na nossa sala, para mais tarde recordar...



eTwinners

A participação no projeto eTwinning "My country and yours", cujas fundadoras de França e do Reino Unido lançaram o convite aberto à comunidade eTwinning fez convergir docentes e alunos oriundos de diversos países como a Roménia, Lituânia, República Checa, Itália e Grécia num total de dez docentes, aconteceu desde abril até ao final deste ano letivo.
O envolvimento de cinco alunas com necessidades educativas especiais, inclusive uma com Currículo Específico Individual, visou entre outros fazer interagir alunos de diferentes países e culturas na comunicação escrita, melhorando a proficiência da leitura e da escrita em língua inglesa, fazendo emergir as capacidades e as competências daquelas crianças com limitações na atividade e participação. A plataforma do TwinSpace permitiu colocar os posters dos alunos e ler os comentários dos outros participantes.
Para memória futura, o fim também deste blogue:

Tempus fugit


O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

Luís de Camões

Deleite matinal


Prazeres

O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.

Bertolt Brecht

Das palavras


As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos, as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

Dia Mundial da Poesia


É urgente o amor

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

Liberação


Libera-me

Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.

Carlos Queirós

Na floresta apaixonada


Ontem crianças especiais criaram, através de recorte e colagem, uma representação metafórica do amor:

Árvores amorosas


'In tempore'


Música Mirabilis

Talvez a ternura
crepite no pulso,
talvez o vento
súbito se levante,
talvez a palavra
atinja o seu cume,
talvez um segredo
chegue ainda a tempo
- e desperte o lume.


EUGÉNIO DE ANDRADE, in MAR DE SETEMBRO (Limiar, 1977) , in POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (Modo de Ler, 2011)

Indefetível


Uma pequena luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.


Jorge de Sena, Fidelidade (1958) in ANTOLOGIA POÉTICA (Guimarães Ed., 2010)


Em dia de Reis Magos


Os meninos com necessidades educativas especiais não sabiam quem eram os protagonistas do Dia de Reis. Por isso, pesquisaram e fizeram alguns trabalhos simples onde aprenderam e mobilizaram competências: 







Os três Reis do Oriente 
Cada um dava um presente:
Veio o Belchior com o ouro 
E que belo tesouro!
Veio o Gaspar com incenso 
Para dar!
E veio o Baltazar com mirra 
Para o imortalizar! 

Érica
Patrícia 
5.º 6.ª