Ar sem ar

A cabeça no ar

As coisas melhores são feitas no ar,
andar nas nuvens, devanear,
voar, sonhar, falar no ar
e ir lá para dentro morar,
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respiração a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar
a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar
             (embora sem ver),
e ficar muito quietinho a ser,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer,
e isto tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
As coisas melhores são de ar,
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar.


Manuel António Pina, O Pássaro da Cabeça e Mais Versos para Crianças. Porto: Assírio & Alvim, 2012: p. 25-26

Simetrias



«Como ele sempre dissera: o rio e o coração, 
o que os une? O rio nunca está feito, 
como não está o coração. Ambos são 
sempre nascentes, sempre nascendo. 
Ou como eu hoje escrevo: milagre é o rio 
não findar mais. Milagre é o coração 
começar sempre no peito de outra vida.»

Mia Couto, A chuva Pasmada, Lisboa: Ed. Caminho, 2012