Entrelinhas


Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente. 


CLARICE LISPECTOR, in ÁGUA VIVA (Francisco Alves Editora. 11ª. Edição, RJ, 1990: p.25)


Alinhavo

Anabela Dias, Temporal
Pouco tenho para alinhavar.

Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.

Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam

a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
a memória a estiolar.

Eduardo Pitta

Imagens


Retrato

O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado:
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.

Miguel Torga, Diário VI


Paul Cézanne, Maçãs, pêssegos, peras e uvas (1879-1880)

Poemas em análise

Agora que andamos à volta do texto poético no 8º ano, segue-se a abordagem ao poema de Eugénio de Andrade que aconteceu hoje - metodologia que se espera inspiradora para a preparação das apresentações dos trabalhos de grupo dos alunos, na próxima semana, e  porque solicitaram divulgação aqui fica, apesar do formato no slideshare anular os efeitos especiais das entradas dos tópicos. 

Poemas acordados

No âmbito do concurso Ler nas Entrelinhas| Entre o sono e o sonho, foram enviadas as participações dos alunos do 8ºB, onde se destacou o Pedro com o primeiro prémio:



Entre o sono e o sonho
Vejo as estrelas nas paredes
Dos meus olhos, por que
Os sonhos requerem tanto de mim

Por que viajo pelo universo
Sem sair no meio dos lençóis de cetim?
Porquê vasculhar o meu passado?
Mas que pena não estar acordado

Correr sobre a terra e o céu
E andar por terras inexploradas
Explorar as florestas virgens
Abre os olhos não adormeças!

Acordar para quê?
Se podemos tudo nos sonhos
Deus diz para eu ir para ali
Mas eu não escolho o que o
Diabo destina para mim

Estou cheio de sono, quero ter outro sonho.

Pedro Jacinto, 8ºB



Entre o sono
Queremos o sonho
Desde que não seja medonho.
Gosto de sonhar
Sempre é melhor que acordar.
Ao estarmos a sonhar
Estamos a imaginar
Coisas que sempre quisemos experimentar.
Como ainda não as podes fazer
Tens de sonhar para as ter.

Rodrigo Alves, 8ºB



Há muito quem diga
que às vezes acordamos
sem ninguém que nos diga.

Sem sono, sem alma
viajo sempre nas calmas
ora acordo rabugento ou
indignado, fico sempre atordoado.

Entre marés, rios e riachos
entre o sonho e o sono
há sempre esperança por
um dia novo.

Ora estamos a ter
um sonho ou um pesadelo,
e acordamos sempre num novelo.

Eduardo André Livramento, 8ºB





Concursos a Ler+

Com a participação na iniciativa "Conheço um escritor" da revista Visão Júnior nas edições de maio e junho, ficámos a conhecer melhor os escritores Valter Hugo Mãe que conhecemos e entrevistámos pessoalmente e a Margarida Fonseca Santos através do envio de questões, e assim promovendo a leitura ampliamos o conhecimento sobre outros universos, outras obras e autores... a visualização total aqui.


No ocaso


Em Todo o Caso

Remancha, poeta,
Remancha e desmancha
O teu belo plano
De escrever p'la certa.
Não há "p'la certa", poeta!

Mas em todo o caso acerta
Nem que seja a um verso por ano...

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca