Ponte pênsil

Van Gogh, Terraço do Café em Arles à Noite, 1888














Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia


Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte.
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
Dum par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.


Reinaldo Ferreira


in 366 poemas que falam de amor, pág.356, antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal, 2003

[Barcelona, 1922-Lisboa, 1959]
Em 1941 parte para Lourenço Marques onde faz o liceu e no final da década alguns poemas vêm a lume em páginas literárias. No entanto, apenas a título póstumo é publicada a obra que em 1965 é divulgada, sendo fundado, em Lourenço Marques, o grupo de Teatro e Poesia «Reinaldo Ferreira», que mantém a sua actividade, através de representações teatrais e recitais de poesia, até à independência do país, em 25 de Junho de 1975, data a partir da qual a maioria dos seus fundadores regressa a Portugal.
António José Saraiva e Óscar Lopes compararam-no ao poeta Fernando Pessoa, realçando «o mesmo sentir pensado, a mesma disponibilidade imensamente céptica e fingidora de crenças, recordações ou afetos, o mesmo gosto amargo de assumir todas as formas de negatividade ou avesso lógico».

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