Introvertido

Duy Huynh, the flower bed & the pillow book, 2009 















Guardador de Rebanhos
XLIX


Meto-me para dentro, e fecho a janela. 
Trazem o candeeiro e dão as boas-noites, 
E a minha voz contente dá as boas-noites. 
Oxalá a minha vida seja sempre isto: 
O dia cheio de sol, ou suave de chuva, 
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo, 
A tarde suave e os ranchos que passam 
Fitados com interesse da janela, 
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores, 
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso, 
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir, 
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito, 
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.


Alberto Caeiro | Fernando Pessoa
in Poesia de Fernando Pessoa, Antologia de Adolfo Casais Monteiro, Presença 2006

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