Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.
11-5-1928
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993) - 34
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| Niki J Sands, All of Me |
O eu sentir quando penso
e pensar enquanto sinto
origina um labirinto
onde me perco e convenço
de que tudo é indistinto,
do que o mundo se organiza
desorganizadamente
nos recônditos da mente
como uma ideia imprecisa
que quando se pensa, sente
e quando se sente, pensa,
numa confusão total,
num processo irracional
em que se esfuma a diferença
entre o que é ou não real.
Dos meandros disso tudo
nasce apenas um desejo:
distinguir o que não vejo
e é talvez o conteúdo
deste infinito bocejo
a caminho não sei de onde,
à espera não sei de quê.
Quem me ouve? Quem me vê?
A vida não me responde
e afinal ninguém me lê.
in Lyrikline
Fernando Pinto do Amaral
Nasceu em Lisboa (1960), frequentou Medicina, mas licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, doutorando-se em Literatura Românica, área que leciona na UL.
Em Fevereiro de 2008 recebeu, em Madrid, o Prémio Goya, na categoria de Melhor Canção Original pelo seu Fado da Saudade, interpretado por Carlos do Carmo no filme Fados, de Carlos Saura.
Em 2009 foi nomeado comissário do Plano Nacional de Leitura. Pai da escritora Inês Pedrosa.
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| Duy Huynh, Cumulus Curiosity, 2009 |
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| Duy Huynh, Slow Food For Thought, 2010 |
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| Duy Huynh, Place of Steadiness, 2010 |
Paráfrase
Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.
A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.
Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.
Pedro Mexia
in 366 poemas que falam de amor, antologia de Vasco Graça Moura, Quetzal, 2003
Pedro Mexia ( Lisboa, 1972), licenciado em Direito, escritor e crítico literário.
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À volta de Saramago
by paulacris às 18:46 Etiquetas: Saramago, Teatro Memorial do Convento, Visita de estudo
Abaixo nos comentários, deixa em 80 palavras o teu artigo de apreciação crítica acerca da visita de estudo do dia 16.
Com a integração histórica que começou pela visita guiada ao Palácio de Mafra foi importante perceber a contextualização da obra, a época, os costumes e as vicissitudes do reinado de D. João V que José Saramago tão habilmente descreve. Depois a leitura encenada permitiu uma motivação adicional para a leitura de Memorial do Convento e por este motivo se afigurou de extrema importância dinamizar esta visita de estudo.
Com a integração histórica que começou pela visita guiada ao Palácio de Mafra foi importante perceber a contextualização da obra, a época, os costumes e as vicissitudes do reinado de D. João V que José Saramago tão habilmente descreve. Depois a leitura encenada permitiu uma motivação adicional para a leitura de Memorial do Convento e por este motivo se afigurou de extrema importância dinamizar esta visita de estudo.
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| Duy Huynh, the flower bed & the pillow book, 2009 |
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| Daniel Nevins, Broken-Open Heart, 2010 |
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
oferecer-te uma sílaba
um conselho
um cigarro
Alexandre O'Neill
Não tenho feito coisas simples,
mas
inúteis, ridículas.
Cansaço e abulia.
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Amanhã o futurismo-sensacionismo a nível temático e estilístico:
ODE TRIUNFAL
À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
...
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
...
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!
Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes --
Na minha mente turbulenta e incandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
...
Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!
Eia! eia! eia!
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-lá! He-hô Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!
Álvaro de Campos | Fernando Pessoa
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Ler, ouvir, compreender...
by paulacris às 21:44 Etiquetas: Alice Vieira, Expressões idiomáticas, PLNMPLNM B2,
Para compreenderes bem o texto, acompanha a leitura com a audição e simultaneamente poderás ler em voz baixa melhorando a pronúncia (fonética) das palavras mais difíceis.
Vais conhecer Alice Vieira, uma importante escritora portuguesa. De seguida, clicas na barra lateral em compreender o texto e farás uma série de seis exercícios: de verificação da compreensão da leitura; ficarás a conhecer algumas especialidades médicas; algumas expressões idiomáticas e por fim colocando os interrogativos no devido lugar obterás uma mini-entrevista.
No link escolhe a pequena narrativa: Vinte Cinco a Sete Vozes de Alice Vieira.
No link escolhe a pequena narrativa: Vinte Cinco a Sete Vozes de Alice Vieira.
Depois, vais conhecer outras expressões idiomáticas: expressões populares com palavras que não podem traduzir-se isoladamente, mas que globalmente têm um único significado. Em dois exercícios de escolha múltipla: primeiro descobre o significado de algumas expressões, depois descobre a expressão idiomática a partir do seu significado, aqui.
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| Edvard Munch, Comfort, 1907 |
O Andaime
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.
A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que minha 'sp'rança,
Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
(...)
Fernando Pessoa
in Poesia de Fernando Pessoa, Antologia de Adolfo Casais Monteiro, Presença 2006
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| Edvard Munch, Amor and Psyche, 1907 |
Lembra-te
Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Mário Cesariny, in Pena Capital
[Lx, 1923-2006, Lx]
Poeta e pintor, frequenta a Escola de Artes Decorativas António Arroio. Conhece o surrealista francês André Breton e em Lisboa funda o Grupo Surrealista Dissidente depois de acesas polémicas com o mesmo grupo de Lisboa. Faz a primeira exposição coletiva em 1949 e em 1950 publica o primeiro livro Corpo Visível. O Surrealismo marca em Cesariny o ponto de partida de um percurso artístico profundamente vivido ao longo da segunda metade do século XX, tanto na escrita como nas artes plásticas.
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| Van Gogh, Terraço do Café em Arles à Noite, 1888 |
Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia
Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte.
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
Dum par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.
Reinaldo Ferreira
in 366 poemas que falam de amor, pág.356, antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal, 2003
[Barcelona, 1922-Lisboa, 1959]
Em 1941 parte para Lourenço Marques onde faz o liceu e no final da década alguns poemas vêm a lume em páginas literárias. No entanto, apenas a título póstumo é publicada a obra que em 1965 é divulgada, sendo fundado, em Lourenço Marques, o grupo de Teatro e Poesia «Reinaldo Ferreira», que mantém a sua actividade, através de representações teatrais e recitais de poesia, até à independência do país, em 25 de Junho de 1975, data a partir da qual a maioria dos seus fundadores regressa a Portugal.
António José Saraiva e Óscar Lopes compararam-no ao poeta Fernando Pessoa, realçando «o mesmo sentir pensado, a mesma disponibilidade imensamente céptica e fingidora de crenças, recordações ou afetos, o mesmo gosto amargo de assumir todas as formas de negatividade ou avesso lógico».
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II Contrato de leitura 8º ano
by paulacris às 16:05 Etiquetas: Contrato de leitura, Crónica, José Luís PeixotoUnidade 1 | textos de comunicação social e interpessoal

Podem também optar pela leitura online desta crónica e conhecer o escritor José Luís Peixoto (prémio Saramago) e depois explorar muitos dos seus livros em futuras leituras.
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