Vai alta no Céu
Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.
Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa), in O Pastor Amoroso
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O intrigante e ambíguo Fernando Pessoa - o génio das multitudes, da versatilidade na criação literária e artística, na concepção de alter egos dotados de personalidades, biografias, filosofias, estéticas e percursos singulares.
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar.
As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.
Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego
Semi-heterónimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares é um tipo particular da heteronímia pessoana, visto não possuir biografia própria, a não ser o de ajudante de guarda-livros em Lisboa, e ser considerado por muitos críticos literários a outra voz do Pessoa Ortónimo que escreve assim em nome da sua própria personalidade literária. Pessoa considera aquela outra voz uma mutilação da sua personalidade que sendo a sua, difere dela. Pessoa diz ser Bernardo Soares menos o raciocínio e a afectividade. O Livro do Desassossego constitui-se como narrativa fragmentária onde predomina a dramaticidade das reflexões humanas e o absurdo da própria literatura e de uma escrita que ele reconhece como inútil, imperfeita, à beira do tédio e do trágico e da indiferença estética.
Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.
Álvaro de Campos, in Opiário
Heterónimo de Fernando Pessoa, nasceu em Tavira da Serra Grande, teve uma educação exemplar, estudando engenharia naval na Escócia e viajou pelo Médio Oriente. A sua poesia mostra o percurso do heterónimo pelas fases decadentista, futurista e niilista. Destaca-se neste "outro eu" a fase do triunfo da máquina e da civilização, do frenético e a vida moderna.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos.
... Colhe o dia porque és ele.
Ricardo Reis, in Odes
Heterónimo de Fernando Pessoa (Porto, 19 de setembro de 1887) que recebeu uma educação clássica no colégio dos jesuítas e formou-se em medicina, profissão que exerce, e vive no Brasil para onde se expatriou devido à derrota monárquica. Saramago no "Ano da morte de Ricardo Reis" situa a morte do poeta em 1936. Discípulo de Caeiro, Ricardo Reis é o poeta da serenidade, da calma, do equilíbrio que a formação greco-latina lhe induzem na observância do epicurismo no culto do "carpe diem" e da "aura mediocritas" e do estoicismo no auto-domínio, na indiferença, no conformismo, na liberdade assente na ausência do envolvimento emocional.
Para Além da Curva da Estrada
Para além da curva da estrada
Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos
Heterónimo de Fernando Pessoa (Lisboa, 16 de Abril de 1889 - 1915). É o poeta da natureza, apenas com a instrução primária é o Mestre dos outros heterónimos e do próprio Pessoa ortónimo, assim o definiu Pessoa, para quem "pensar é estar doente dos olhos" afirmando-se anti-metafísico e interessando-se apenas pela realidade natural e objectiva, pelas sensações e pela simplicidade.
Acima da verdade estão os deuses
Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.
Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,
Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.
16-10-1914
Fernando Pessoa, in Poesia 1902-1917
Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935) nasceu em Lisboa, partindo, após o falecimento do pai e o segundo casamento da mãe, para África do Sul. Frequenta várias escolas e recebe uma educação inglesa. Regressa a Portugal em 1905 fixando-se em Lisboa, onde inicia uma intensa actividade literária. Simpatizante da Renascença Portuguesa da qual renuncia em 1915, é com Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e outros, que se esforça por renovar a literatura portuguesa com a criação da revista Orpheu, veículo de novas ideias e novas estéticas. Com a sua capacidade de «outrar-se», cria vários heterónimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares como semi-heterónimo porque não o dota de biografia própria ao contrário dos anteriores), assinando as suas obras de acordo com a personalidade de cada heterónimo. Colabora em várias revistas, publica em livro os seus poemas escritos em inglês e, em 1934, ganha o concurso literário promovido pelo Secretariado de Propaganda Nacional, categoria B, com a obra Mensagem, que publica no mesmo ano. Deixa grande parte da sua obra ainda inédita com 47 anos. Considerado um dos maiores poetas portugueses ou "o mais intelectual dos poetas" como o definiu o seu amigo Carlos Queirós e o poeta intemporal segundo o Diário de Lisboa de 6 de Dezembro de 1935 (in Fotobiografias do Século XX-Fernando Pessoa, Círculo de Leitores, 2008, pág. 173).
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