Escrita criativa: micro-narrativas

Há muito que a escrita criativa a partir da "Árvore Generosa", anunciada em 27/Março, aguardava divulgação aqui. Visto que o site http://storybird.com apenas torna públicas as histórias depois de aprovadas e dado que não o fazem senão para trabalhos em língua inglesa, optei por fazer captura de ecrã para cada página (ainda que com perdas na qualidade do texto e da imagem) e publicar usando o formato Calaméo, a fim de divulgar as produções dos alunos e mais uma ferramenta ao serviço da escrita criativa que terá enormes potencialidades na disciplina de Inglês. Por isso, os créditos de imagem são de Pascal Campion e da Storybird onde foram seleccionadas todas as figuras, de entre a vasta galeria. 
Fica o livro digital com algumas micro-narrativas que apontam outros desfechos para a pequena narrativa de Shel Silverstein

Da amizade

Hoje, Dia Internacional da Amizade - suposta iniciativa do argentino Enrique Ernesto Febbraro que a 20 de Julho de 1969 terá lançado a comemoração do dia dos amigos para homenagear o grande feito científico da chegada do Homem à Lua naquele dia memorável no estreitamento dos laços.

E os afectos como a amizade são evidências do dia a dia e uma aprendizagem contínua.


AMIZADE


De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: - "Espera e confia!"
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.


Carlos Queirós, in 366 poemas que falam de amor, pág.160, Antologia Organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal, 2003

Poeta, ensaísta, crítico literário e de arte [Lisboa, 1907-Paris, 1949]. Frequentou Direito em Coimbra, colaborou em várias revistas como a Presença e a Contemporânea com poesias e artigos de crítica literária. Assíduo colaborador da Revista Presença, estabelece um elo de ligação entre o primeiro modernismo da geração Orpheu e o segundo modernismo da Presença com figuras como Fernando Pessoa e Almada Negreiros. Em 1935 recebe o prémio Antero de Quental do Secretariado de Propaganda Nacional com a obra DesaparecidoConsiderado um discípulo directo de Fernando Pessoa, a sua poesia caracteriza-se pela perfeição formal, pelo equilíbrio e sobriedade e pela sugestão musical. Os seus poemas denunciam alguma herança romântica e uma certa aproximação ao simbolismo.
Foi através de Carlos Queirós que Fernando Pessoa conhecera a sua amada Ofélia. Fica uma das cartas que  Carlos Queirós escrevera a quem designara "o mais intelectual dos poetas portugueses", num estilo admirável.

Deambulando no soneto

Quatorze versos

No primeiro é assim: fica de parte.
No segundo já posso prometer
que no terceiro vai haver mais arte.
Mas afinal não houve... Que fazer?


Melhor será calar, pois que dizer
nem no sexto conseguirei destarte.
Os acentos errados é favor não ver;
nem os versos errados, que também sei hacer...


Ó nono verso por que vais embora
sem que eu te sublime neste décimo?
Ao décimo primeiro dediquei uma hora.


Errei-o. Mas que importa se a poesia,
mesmo que não o errasse, já não vinha?
É este o último e, como os outros, péssimo...


Alexandre O'Neill, in Poesias Completas 1951/1986


Poeta contemporâneo (Lisboa, 1924 - Lisboa, 1986), descendente de Irlandeses, é um dos fundadores do movimento surrealista em Portugal, cujo desmembramento da lógica textual e a pluralidade de sentidos emprestam forma às temáticas da solidão, do amor, do sonho, do tempo, da morte, do medo que entrelaça entre a constatação do absurdo da vida e o humor, única forma de se lhe opor.


O soneto possui uma arquitectura lógica com introdução, desenvolvimento e conclusão - esta no último terceto ou no(s) último(s) verso(s), denominada chave de ouro do soneto por conter a descodificação de todo o poema. Existem, contudo, variações na estrutura externa do soneto:
Soneto italiano ou petrarquiano - composição poética de catorze versos distribuídos por duas quadras e dois tercetos.
Soneto inglês ou shakespeariano - composição de três quadras e um dístico.
Soneto monostrófico - composição que apresenta uma só (mono) estrofe de catorze versos.
Miguel de Cervantes cultivou o soneto irregular, acrescentando-lhe um strambotto - um ou mais versos no final - termo italiano para extravagante, irregular. Daí a designação de soneto estrambótico como soneto incomum.
Quem mais aperfeiçoou esta forma poética foi Petraca de quem o seu Cancioneiro com 317 sonetos é a principal referência, influência e difusão na literatura ocidental, mas que derivara já de uma composição originária da Sicília do séc. XIII. Os seus melhores poemas são dedicados à sua amada (Laura de Novaes) por quem possuía um amor espiritual, idealizado, donde derivou a expressão corrente como amor à maneira de Petrarca e que tantos poetas incorporaram criando-se o Petrarquismo como atitude do poeta pela mulher amada, bela e imaculada que o faz sofrer despertando-lhe um amor platónico assente no amor vislumbrado na perfeição dos traços espirituais, no endeusamento do objecto amado, inatingível, inacessível e por isso fonte de sofrimento perturbador mas casto e leal. O amor platónico encontra uma relação com a filosofia platónica (de Platão, sécs. IV-I a.c.) para quem existe uma verdade suprema - a da primazia das ideias das formas ideais, imutáveis, incorruptíveis das quais se origina o mundo sensível, sujeito ao devir. E no dilema dos dois mundos - o material, sensível ou das aparências que corrompe, contrasta o mundo espiritual, inteligível ou das essências onde a beleza particular do ser amado não é mais que uma mutilação da ideia perfeita e eterna de Beleza, assim como o amor sentido como desejo de algo material é inferior ao Amor espiritual e puro [História Universal da Literatura Portuguesa].
Ainda Dante Alighieri, autor da Divina Comédia, também cultivou o soneto no seu amor por Beatriz na sua Vita Nuova. William Shakespeare adoptou-o com uma arquitectura diferente da clássica e original de Petrarca e, a partir do séc. XVI, o soneto tornou-se a melhor representação da poesia lírica infuenciando músicos como Tchaikovsky e Vivaldi, bem como o poeta russo Aleksandr Pushkin e o poeta francês Charles Baudelaire que o trabalhou com o verso dodecassílabo ou Alexandrino (versos com doze sílabas métricas).
O poeta português do período clássico, Sá de Miranda, depois das suas viagens por Itália introduz em Portugal, no séc. XVI, novas formas poéticas, entre as quais o soneto e as composições decassilábicas que viriam a ser trabalhadas com mestria por Luís Vaz de Camões que adoptou aquela estética, cultivando e imortalizando o soneto de amor na língua portuguesa que conhece na literatura contemporânea da poetiza Florbela Espanca, por exemplo, uma forte expressão.
Posteriormente, outras correntes literárias como o iluminismo na sua adesão ao humanismo e ao barroco desprezam o soneto que só é retomado pela corrente do romantismo que sobrevive até ao verso livre dos poetas modernistas. E o soneto acaba por ser tema de poema nesta desestruturação da linguagem, efusão que o surrealismo instaura não só na literatura como em outras expressões artísticas (Miró, René Magritte e Salvador Dali nas artes plásticas), mas de quem nas letras, Alexandre O'Neill é um ícone. A partir da definição criada pelo seu autor Guillaume Apollinaire, poeta francês, em 1912, surrealismo "é o que está acima do realismo".

Atenção

Poesia é pensar com imagens. (Novalis)




Novalis (Alemanha, 1772-1801), pseudónimo de Georg Friedrich Philipp Freiherr von Hardenberg, um dos mais importantes representantes do primeiro romantismo alemão, poeta, romancista e teórico do Romantismo. Estudou Direito na Universidade de Jena (uma das mais antigas da Alemanha, fundada em 1558) e a aproximação a Friedrich von Schlegel introduziu-o à filosofia de Kant e Fichte.  Fatalidades levam-no a escrever seis poemas em prosa, Hinos à noite, que celebram a noite e a morte, antecipando a sua visão mística da união amorosa e do universo depois da morte. Nos últimos anos de grande idealismo e criatividade poética surge o seu sistema filosófico. Dos fragmentos coligidos sob o título de Fragmentos percorre uma grande densidade filosófica na abordagem da compreensão do mundo, de Deus, do lugar do homem, do absoluto.

Numa segunda vida

O exímio Pessoa no ambiente imersivo do Second Life e uma brevíssima súmula de passagens significativas da sua magistral obra profética...