Poemas que nos beijam

4ªfeira, 13 de Abril, consta que foi Dia Internacional do Beijo, embora o (Inter)National Kissing Day se celebre a 6 de Julho no Reino Unido. 
Uma selecção, a propósito... 


O Beijo


Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.


Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?


É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.


E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...


Há Palavras que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.


Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca

Poeta contemporâneo (Lisboa, 1924 - Lisboa, 1986), descendente de Irlandeses, é um dos fundadores do movimento surrealista em Portugal, cujo desmembramento da lógica textual e a pluralidade de sentidos emprestam forma às temáticas da solidão, do amor, do sonho, do tempo, da morte, do medo que entrelaça entre a constatação do absurdo da vida e o humor, única forma de se lhe opor.


Horas Rubras


Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...


Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...


Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...


Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!


Florbela Espanca, in Livro de Soror Saudade


Autora polifacetada (Vila Viçosa, 8-12-1894 - Matosinhos, 8-12-1930), cuja curta vida foi preenchida de inquietação e sofrimento traduzidos em poemas sublimes, cultivados no seu género preferido - o soneto, onde cabem também a solidão, a saudade, a sedução, o desejo e a morte. Uma das mais notáveis poetas líricas que expõe a intensidade do emotivo erotismo feminino, deambulando pelo egocentrismo sedento de glória, exacerbando em simultâneo a expressão do amor, da amizade e das afeições, tão recorrentes na obra florbeliana.

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