Lição nº100

Hoje, Língua Portuguesa - 7ºD - 100 lições, 100 dígitos.

Para os grupos que trabalham a micro-narrativa "Vanina e Guidobaldo" in O Cavaleiro da Dinamarca...

1.
a) Pesquisa a associação com outras histórias de amor impossíveis ou proibidas, sintetizando semelhanças ou diferenças para as narrativas abaixo.

b) Quem são os autores e as obras, o ano de edição, ... onde constam as narrativas de amor da  História da Literatura:
  • Sansão e Dalila; 
  • Píramo e Tisbe; 
  • Tristão e Isolda; 
  • Pedro e Inês; 
  • Romeu e Julieta

2. 
Escrita criativa: 
a) apresenta um desenlace diferente para a micro-narrativa "Vanina e Guidobaldo";
b) redige a carta que Vanina escreveria ao seu tutor, mais tarde... 
c) escreve a carta de amor que um pretendente saudosista de Vanina lhe envia (depois envia a resposta da donzela também), inspirando-te numa das 34 cartas, desde Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Beethoven, Byron, Bocage, Garrett, Balzac, entre muitos outros:


Cartas de Amor de Grandes Homens, org. Ursula Doyle, Bertrand Editora, 2008
Cartas de Amor de Grandes Mulheres, org. Ursula Doyle, Bertrand Editora, 2010

3. 
E... conheces os 13 melhores contos de amor da Literatura Brasileira? Vê o e-book abaixo (visualização limitada) e depois pesquisa mais informação sobre os autores na BE/CRE, e lê-nos os teus excertos preferidos:


“Vasto mundo” – Maria Valéria Rezende
“Jason” – Lívia Garcia-Roza
“Emanuel” – Lygia Fagundes Telles
“O homem que voltou ao frio” – Cíntia Moscovich
“Histórias de gente e anjos” – Lya Luft
“Onde os oceanos se encontram” – Marina Colasanti
“Conto de verão nº 2: Bandeira branca” – Luis Fernando Veríssimo
“Tílburi de praça” – Raul Pompéia
“História de amor em cartas” – Carlos Drummond de Andrade
“Uns braços” – Machado de Assis
“A parada da ilusão” – João do Rio
“Anotações sobre um amor urbano” – Caio Fernando Abreu
“O amor acaba” – Paulo Mendes Campos
Ed. Ediouro – 2003 – Organização Rosa Maria Strausz

Feliz e doce Páscoa

Em véspera de feriado(s) deito contas
à vida. É no feriado(s) que posso ter tempo
para saber o que me falta, ou se não me falta
nada para saber o que hei-de fazer para que me falte
alguma coisa.

Nuno Júdice [Portimão, 1949]

Professor Universitário de Português, catedrático com a dissertação de 1989 sobre Literatura Medieval. Poeta e ficcionista com estreia literária em 1972 com Noção de Poema. Escreveu obras para teatro e traduziu Corneille e Emily Dickinson. Ensaísta, publicou antologias e estudos de crítica literária, entre os mais importantes prémios de poesia recebidos é um autor traduzido em vários países.

À sexta-feira

Sexta-feira sol dourado

Sexta-feira sol dourado
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega e enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente

Ruy Belo, in Todos os Poemas 


Nome de destaque na poesia portuguesa contemporânea (Rio Maior, 1933 - Lisboa, 1978), ensaísta e crítico literário, deixou uma obra que reflecte um fundo filosófico na abordagem de múltiplos temas como expressão da sua relação com o tempo e a linguagem que o procura exorcizar.

Poemas que nos beijam

4ªfeira, 13 de Abril, consta que foi Dia Internacional do Beijo, embora o (Inter)National Kissing Day se celebre a 6 de Julho no Reino Unido. 
Uma selecção, a propósito... 


O Beijo


Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.


Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?


É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.


E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...


Há Palavras que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.


Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca

Poeta contemporâneo (Lisboa, 1924 - Lisboa, 1986), descendente de Irlandeses, é um dos fundadores do movimento surrealista em Portugal, cujo desmembramento da lógica textual e a pluralidade de sentidos emprestam forma às temáticas da solidão, do amor, do sonho, do tempo, da morte, do medo que entrelaça entre a constatação do absurdo da vida e o humor, única forma de se lhe opor.


Horas Rubras


Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...


Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...


Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...


Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!


Florbela Espanca, in Livro de Soror Saudade


Autora polifacetada (Vila Viçosa, 8-12-1894 - Matosinhos, 8-12-1930), cuja curta vida foi preenchida de inquietação e sofrimento traduzidos em poemas sublimes, cultivados no seu género preferido - o soneto, onde cabem também a solidão, a saudade, a sedução, o desejo e a morte. Uma das mais notáveis poetas líricas que expõe a intensidade do emotivo erotismo feminino, deambulando pelo egocentrismo sedento de glória, exacerbando em simultâneo a expressão do amor, da amizade e das afeições, tão recorrentes na obra florbeliana.

Aprender de forma lúdica

Nesta pausa, joga e aprende clicando no Jogo dos Erros de Português. Depois experimenta os outros e deixa aqui os teus resultados... 

"Dante e Beatriz"

Na passada 6ªfeira, as dúvidas sobre a verdade de “Dante e Beatriz” trazem aqui alguns factos e certezas para elucidar a Mariana, a Márcia e o Flávio… e justificam-se porque Sophia de Mello Breyner Andersen inseriu este episódio na obra o Cavaleiro da Dinamarca e alguns questionam-se sobre os factos aí narrados.

Assim…
Dante Alighieri (Florença, 1265 – Ravena, 1321) é considerado o primeiro e maior poeta de língua italiana com igual paralelo a Camões para a língua portuguesa. Recebendo uma vasta educação poética difundida pela Escola Poética da Sicília que divulgou autores medievais, mas também os da Antiguidade Clássica como Virgílio, autor da Eneida, bem como Horácio, Ovídio, Cícero, entre outros, na formação de Dante que, aos dezoito anos, iniciou o Dolce Stil Nuovo na poética, para além do gosto por outras expressões como a pintura e a música, torna-se um ícone inspirador em várias expressões.
Ter-se-á de facto apaixonado por Beatriz, embora não haja registos que atestem, em pormenor, mais detalhes e esta terá morrido em 1290, facto que levou Dante a um refúgio espiritual na filosofia da literatura latina (Antiguidade Clássica) da qual havia recebido assaz formação.
Para além das demais vicissitudes da sua atribulada vida política que o levaram ao exílio, foi o autor da consagrada obra A Divina Comédia que descreve, assim, a sua viagem através do Inferno e Purgatório (guiado pelo poeta Virgílio, símbolo da razão humana) e finalmente pelo Paraíso guiado pela mão da sua amada Beatriz (símbolo da graça divina).

Sobre o livro, de estrutura épica, com versos decassílabos (ou decassilábicos) apresenta-se dividido em 100 capítulos/cantos, rigorosamente simétricos, em tercetos segundo a técnica terza rima, pois o 2º verso comanda o 1º e o 3º versos da estrofe seguinte e assim sucessivamente quanto à rima e acentuação.
- Inferno, com 34 cantos
- Purgatório, com 33 cantos
- Paraíso, com 33 cantos

O título Comédia, aplica-se na sua acepção original, por terminar bem, i.e. no Paraíso, o que contrasta com Tragédia cujo terminus visa a compaixão e o terror  – ambos sub-géneros, não antagónicos contudo, do género Dramático.
O livro “Inferno” descreve de forma cinematográfica a agitação angustiada das paixões enquanto  que “Purgatório” e “Paraíso” são mais metafóricos, sendo este último mais lírico e humano.

As referências para maior aprofundamento:
- Da Wikipedia, enciclopédia livre, a Biografia de Dante;
- Da Wikiquote, fonte de citações, encontramos algumas   expressões;
- Da Wikimedia Commons, repositório media, encontramos mais informação;
- Da Wikisource, fonte de textos originais, fica a tradução da obra em poesia;
- Uma versão em prosa, de leitura mais acessível e outros detalhes. 

E três passagens do intróito dos Cantos I da versão em poesia, motivadoras da leitura que faremos amanhã e depois em contexto de sala de aula:

Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz, depois, o guiará ao Paraíso. Dante o segue. (Divina Comédia, Inferno, Canto I)
Saindo do Inferno, Dante respira novamente o ar puro e vê fulgentíssimas estrelas. Encontra-se na ilha do Purgatório.O guardião da ilha, Catão Uticense, pergunta aos dois Poetas qual é o motivo da sua jornada. Ele os instrui, depois, relativamente ao que devem fazer, antes de iniciar a subida do monte. (Divina Comédia, Purgatório, Canto I)   
Invocando Apolo, o Poeta conta como do Paraíso Terrestre ele e Beatriz se alçaram ao Céu, atravessando a esfera do fogo. Beatriz explica-lhe como possa vencer o próprio peso e subir. É atraído pelo invencível amor. Seguindo as teorias de Ptolomeu, Dante põe a terra imóvel no centro do Universo e, em redor dela, em órbitas concêntricas, os céus da Lua, de Mercúrio, de Vênus, do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno, a oitava esfera, que é a das estrelas fixas, a nona, ou primeiro móvel, e finalmente o Empíreo, que é imóvel. Transportado pela força que faz rodar os céus e pela luz sempre crescente de Beatriz, Dante eleva-se de um céu para outro, e em cada um deles aparecem-lhe os espíritos bem-aventurados que, quando vivos, possuíram a virtude própria do respectivo planeta. (Divina Comédia, Paraíso, Canto I)