Tempo inexorável














Burnt Norton
                         I
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espírito.
                          Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
                         Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo?
(...)
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
(...)

T.S. Eliot

Thomas Stearns Eliot (St. Louis/Missouri - EUA, 26 de setembro de 1888 — Londres, 4 de janeiro de 1965) - poeta modernista, dramaturgo e crítico literário inglês. Muda-se para Inglaterra em 1914 e obtém cidadania britânica em 1927 com 39 anos. Entre as influências do pós-guerra dos anos 20 e o simbolista francês Charles Baudelaire em Paris, vem a ganhar o Prémio Nobel em 1948.

Feliz Natal!

Falhas técnicas impediram de sair este post agendado para o dia em causa, mas... é natal todos os dias...



Natal













Natal à beira-rio

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão-Ferreira, Obra Poética

Sabores de Natal

CLIQUE AQUI E DESEJE FELIZ NATAL PARA SEUS AMIGOS.








Prelúdio de Natal

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira

Mais postais

NatalO Pai Natal está quase a trazer-nos os postais de Natal... 

















No final do período letivo e devido à sobreposição de atividades desportivas, a realização de postais decorreu apenas de forma facultativa e para os mais iluminados e hábeis na educação visual e escrita. 
Fica o resultado, embora um pouco tardio, mas ainda assim inspirador com algumas belas mensagens natalícias.

Tricotando nuvens

Duy Huynh,  Making Sense Of The Patterns, 2010   
Um manto de ternura

Dizer-te, meu amigo,
que, à uma da manhã
e desta noite,
está lindo o nevoeiro

que um manto de sossego
assim inteiro
eu desejava dar-te
- e ter comigo.

Enviava-te um frasco,
se pudesse,
fechado em carta azul,

ou por fax de sol
(não fora o medo que o sol
o desfizesse)

Assim, mando daqui
esta espessura
de cheiro muito branco
e muito belo:

um manto de ternura
dobado num novelo,
que chegue
até aí


Título por haver

No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso

Ana Luísa Amaral, in 366 poemas que falam de amor, Antologia de Vasco Graça Moura (org.), Quetzal, 2003

Ana Luísa Amaral [Lisboa, 1956] - Professora de Literatura Inglesa no Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Doutorada na poesia de Emily Dickinson. Em 2007, venceu o Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do encontro de escritores de expressão ibérica Correntes d' Escritas na Póvoa de Varzim, com a obra A Génese do Amor. No mesmo ano, foi galardoada em Itália com o Prémio de Poesia Giuseppe Acerbi. O seu livro Entre Dois Rios e Outras Noites obteve, em 2008, o Grande Prémio de Poesia da APE.

Saborear sonhos escritos

Pablo Picasso, The dream, 1932
Sonho

Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho
(...)

Agostinho da Silva, in Poemas


A Cidade do Sonho

Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva à Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.
(...)

António Feijó, in Sol de Inverno

O Meu Sonho Habitual

Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.
(...)

Paul Verlaine, in Melancolia, tradução de Fernando Pinto do Amaral

Espaço

Pablo Picasso, Jeune Fille Endormie, 1935

Canção excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projecto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
É já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
– saudosa do que não faço,
– do que faço, arrependida.


Cecília Meireles 
in Antologia Poética, Nova Fronteira, 2001

Traço de união

Marc Chagall, Os amantes azuis, 1916














Pedro, lembrando Inês


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que 
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a 
manhã da minha noite. É verdade que te podia 
dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas 
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos 
apenas dentro de nós próprios?" Mas ensinaste-me 
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, 
até sermos um apenas no amor que nos une, 
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: 
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua 
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo 
esse que mal corria quando por ele passámos, 
subindo a margem em que descobri o sentido 
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo 
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, 
de chegar antes de ti para te ver chegar: com 
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água 
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: 
a primavera luminosa da minha expectativa, 
a mais certa certeza de que gosto de ti, como 
gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.


Nuno Júdice
in Pedro, lembrando Inês, Publicações D. Quixote, 2009

Então é Natal

ENTÃO É NATAL, Simone

Então é Natal, e o que você fez?
O ano termina, e nasce outra vez.
Então é Natal, a festa Cristã.
Do velho e do novo, do amor como um todo.
Então bom Natal, e um ano novo também.
Que seja feliz quem, souber o que é o bem.

Então é Natal, pro enfermo e pro são.
Pro rico e pro pobre, num só coração.
Então bom Natal, pro branco e pro negro.
Amarelo e vermelho, pra paz afinal.
Então bom Natal, e um ano novo também.
Que seja feliz quem, souber o que é o bem.

Então é Natal, o que a gente fez?
O ano termina, e começa outra vez.
E Então é Natal, a festa Cristã.
Do velho e do novo, o amor como um todo.
Então bom Natal, e um ano novo também.
Que seja feliz quem, souber o que é o bem.

Harehama, Há quem ama.
Harehama, ha...
Então é Natal, e o que você fez?
O ano termina, e nasce outra vez.
Hiroshima, Nagasaki, Mururoa...

É Natal, É Natal, É Natal.

II Contrato de leitura 10º ano

10º ano | Módulo 2 - Textos expressivos e criativos e textos poéticos

Agora podes escolher poemas da lírica camoniana de influência tradicional ou clássica; ou poesia do séc. XX, fazendo a seleção dos poetas entre estes vários escritores, incluindo outros das literaturas de expressão portuguesa.

Escolhe um ou dois poemas e elabora a ficha de leitura comparando-os ou contrastando-os na tua apreciação e análise temática e estilística.

Também encontras vários poemas musicados, como este aqui de uma figura singular da literatura portuguesa:

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, 
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...


Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...


Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri


E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


Florbela Espanca, in Charneca em Flor


Cogitando entre o verde


Entre o luar e o arvoredo


Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo.
Tudo é não ter nem encontrar.


Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a  brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.


Fernando Pessoa, Poesias Inéditas




Entre o luar e a folhagem


Entre o luar e a folhagem, 

Entre o sossego e o arvoredo, 
Entre o ser noite e haver aragem 
Passa um segredo. 
Segue-o minha alma na passagem. 
Tênue lembrança ou saudade, 
Princípio ou fim do que não foi, 
Não tem lugar, não tem verdade. 
Atrai e dói. 


Segue-o meu ser em liberdade. 


Vazio encanto ébrio de si, 
Tristeza ou alegria o traz? 
O que sou dele a quem sorri? 
Nada é nem faz. 
Só de segui-lo me perdi.


Fernando Pessoa, Cancioneiro

À volta de Gil Vicente

Na passada terça-feira, 29 de novembro, as turmas do 9ºano, no âmbito dos programas de Língua Portuguesa e do estudo do texto dramático, em concreto de Gil Vicente, saíram para uma visita de estudo.
Em Lisboa, a visita iniciou com a descoberta do Mosteiro dos Jerónimos que acolhe reis e poetas portugueses, disponível também para uma visita virtual. O monumento do séc. XVI, ao estilo manuelino ou gótico português é o testemunho da riqueza dos descobrimentos portugueses - os notáveis traços de exuberância emprestam ao Mosteiro a riqueza de um período áureo da nossa história, cujo estilo decorativo traduz também uma majestosa ornamentação e o porte altivo do poder régio.
Depois, a motivação principal acontece com o espetáculo teatral que põe em cena, nos clautros do Mosteiro, o Auto da Barca do Inferno - auto de moralidade que se aproxima da farsa e que constitui a primeira da trilogia das Barcas de Gil Vicente. A sátira social do séc. XVI aliada ao humor dos vários tipos de cómico (de linguagem, situação, caráter) incorporados em personagens-tipo, representativas das classes sociais da época, permitem a Gil Vicente colocar em evidência os vícios de uma sociedade onde a máxima Ridendo castigat mores era um processo de denúncia moral herança da Antiguidade Clássica e que não deixa de ser intemporal.

No decorrer

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.

11-5-1928
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993) - 34

Apókryphos

Niki J Sands, All of Me


APÓCRIFO PESSOANO

O eu sentir quando penso
e pensar enquanto sinto
origina um labirinto
onde me perco e convenço
de que tudo é indistinto,

do que o mundo se organiza
desorganizadamente
nos recônditos da mente
como uma ideia imprecisa
que quando se pensa, sente

e quando se sente, pensa,
numa confusão total,
num processo irracional
em que se esfuma a diferença
entre o que é ou não real.

Dos meandros disso tudo
nasce apenas um desejo:
distinguir o que não vejo
e é talvez o conteúdo
deste infinito bocejo

a caminho não sei de onde,
à espera não sei de quê.
Quem me ouve? Quem me vê?
A vida não me responde
e afinal ninguém me lê.

in Lyrikline

Fernando Pinto do Amaral

Nasceu em Lisboa (1960), frequentou Medicina, mas licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, doutorando-se em Literatura Românica, área que leciona na UL. 
Em Fevereiro de 2008 recebeu, em Madrid, o Prémio Goya, na categoria de Melhor Canção Original pelo seu Fado da Saudade, interpretado por Carlos do Carmo no filme Fados, de Carlos Saura. 
Em 2009 foi nomeado comissário do Plano Nacional de Leitura. Pai da escritora Inês Pedrosa.

Abstração

Duy Huynh, Cumulus Curiosity, 2009
Duy Huynh, Slow Food For Thought, 2010






































Tão abstrata é a ideia do teu ser 
Que me vem de te olhar, que, ao entreter 
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista, 
E nada fica em meu olhar, e dista 
Teu corpo do meu ver tão longemente, 
E a idéia do teu ser fica tão rente 
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me 
Sabendo que tu és, que, só por ter-me 
Consciente de ti, nem a mim sinto. 
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto 
A ilusão da sensação, e sonho, 
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo 
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho 
Do interior crepúsculo tristonho 
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


1911
Fernando Pessoa

A estilística das coisas

Duy Huynh, Place of Steadiness, 2010

Paráfrase


Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.


A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.


Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.


Pedro Mexia
in 366 poemas que falam de amor, antologia de Vasco Graça Moura, Quetzal, 2003


Pedro Mexia ( Lisboa, 1972), licenciado em Direito, escritor e crítico literário.

À volta de Saramago

Abaixo nos comentários, deixa em 80 palavras o teu artigo de apreciação crítica acerca da visita de estudo do dia 16. 

Com a integração histórica que começou pela visita guiada ao Palácio de Mafra foi importante perceber a contextualização da obra, a época, os costumes e as vicissitudes do reinado de D. João V que José Saramago tão habilmente descreve. Depois a leitura encenada permitiu uma motivação adicional para a leitura de Memorial do Convento e por este motivo se afigurou de extrema importância dinamizar esta visita de estudo.

Introvertido

Duy Huynh, the flower bed & the pillow book, 2009 















Guardador de Rebanhos
XLIX


Meto-me para dentro, e fecho a janela. 
Trazem o candeeiro e dão as boas-noites, 
E a minha voz contente dá as boas-noites. 
Oxalá a minha vida seja sempre isto: 
O dia cheio de sol, ou suave de chuva, 
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo, 
A tarde suave e os ranchos que passam 
Fitados com interesse da janela, 
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores, 
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso, 
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir, 
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito, 
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.


Alberto Caeiro | Fernando Pessoa
in Poesia de Fernando Pessoa, Antologia de Adolfo Casais Monteiro, Presença 2006

Talvez

Daniel Nevins, Broken-Open Heart, 2010
Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
oferecer-te uma sílaba
um conselho
um cigarro

Alexandre O'Neill







Não tenho feito coisas simples, 
mas
inúteis, ridículas. 
Cansaço e abulia.

A máquina


Amanhã o futurismo-sensacionismo a nível temático e estilístico:



ODE TRIUNFAL

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 
Em fúria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora, 
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 
De vos ouvir demasiadamente de perto, 
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 
De expressão de todas as minhas sensações, 
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
...

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 
Ser completo como uma máquina! 
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! 
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões 
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
...
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. 
Amo-vos carnivoramente, 
Pervertidamente e enroscando a minha vista 
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, 
Ó coisas todas modernas, 
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima 
Do sistema imediato do Universo! 
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks, 
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes -- 
Na minha mente turbulenta e incandescida 
Possuo-vos como a uma mulher bela, 
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama, 
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
...

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar, 
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, 
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar, 
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia! 
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria! 
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do inconsciente! 
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez! 
Eia todo o passado dentro do presente! 
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! 
Eia! eia! eia! 
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! 
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô! 
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. 
Engatam-me em todos os comboios. 
Içam-me em todos os cais. 
Giro dentro das hélices de todos os navios. 
Eia! eia-hô eia! 
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa! 
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá! 
Hé-lá! He-hô Ho-o-o-o-o! 
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!


Álvaro de Campos | Fernando Pessoa

Acessório



Picasso, Mulher Sentada, 1967




Miró, Personagens invertidas,  1949

Ler, ouvir, compreender...

PLNM B2,

Para compreenderes bem o texto, acompanha a leitura com a audição e simultaneamente poderás ler em voz baixa melhorando a pronúncia (fonética) das palavras mais difíceis.

Vais conhecer Alice Vieira, uma importante escritora portuguesa. De seguida, clicas na barra lateral em compreender o texto e farás uma série de seis exercícios: de verificação da compreensão da leitura; ficarás a conhecer algumas especialidades médicas; algumas expressões idiomáticas e por fim colocando os interrogativos no devido lugar obterás uma mini-entrevista. 
No link escolhe a pequena narrativa: Vinte Cinco a Sete Vozes de Alice Vieira
Depois, vais conhecer outras expressões idiomáticas: expressões populares com palavras que não podem traduzir-se isoladamente, mas que globalmente têm um único significado. Em dois exercícios de escolha múltipla: primeiro descobre o significado de algumas expressões, depois descobre a expressão idiomática a partir do seu significado, aqui.

No bailéu

Edvard Munch, Comfort, 1907 












O Andaime


O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!


Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.


A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que minha 'sp'rança,
Rola mais que o meu desejo.


Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.


Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
(...)


Fernando Pessoa
in Poesia de Fernando Pessoa, Antologia de Adolfo Casais Monteiro, Presença 2006

Auspício

Edvard Munch, Amor and Psyche, 1907














Lembra-te


Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos


Em todas as ruas te encontro


Em todas as ruas te encontro 
Em todas as ruas te perco 
conheço tão bem o teu corpo 
sonhei tanto a tua figura 
que é de olhos fechados que eu ando 
a limitar a tua altura 
e bebo a água e sorvo o ar 
que te atravessou a cintura 
tanto    tão perto    tão real 
que o meu corpo se transfigura 
e toca o seu próprio elemento 
num corpo que já não é seu 
num rio que desapareceu 
onde um braço teu me procura 


Em todas as ruas te encontro 
Em todas as ruas te perco 


Mário Cesariny, in Pena Capital
[Lx, 1923-2006, Lx]
Poeta e pintor, frequenta a Escola de Artes Decorativas António Arroio. Conhece o surrealista francês André Breton e em Lisboa funda o Grupo Surrealista Dissidente depois de acesas polémicas com o mesmo grupo de Lisboa. Faz a primeira exposição coletiva em 1949 e em 1950 publica o primeiro livro Corpo Visível. O Surrealismo marca em Cesariny o ponto de partida de um percurso artístico profundamente vivido ao longo da segunda metade do século XX, tanto na escrita como nas artes plásticas.